Dois dias depois da vitória de François Hollande nas eleições presidenciais francesas, Mário Soares questiona o sentido de se ficar preso ao discurso ditado pela dupla Merkel/Sarkozy e apela à ruptura do PS com o acordo assinado com a troika: “A obrigação do PS ser fiel ao acordo da troika chegou ao fim”.
Para o ex-presidente da República, “essa obrigação foi assumida há um ano. Mas chegou ao fim. A austeridade tem limites. Aliás, até já o Presidente da República o disse”, argumenta o ex-presidente da República.
“O PS sentiu-se durante um tempo obrigado – e bem, porque foi Sócrates que assinou o primeiro acordo – a cumprir [o acordo com a troika]. Mas agora que já está toda a gente a falar noutra linguagem, porque é que o PS deve continuar a ser fiel a esse acordo?”, questiona o líder histórico do Partido Socialista.
Mário Soares tem-se vindo a pronunciar, de forma crescentemente crítica, sobre a política de austeridade permanente que tem vindo a marcar a agenda política europeia e nacional. Ainda há poucas semanas, em artigo publicado no Diário de Notícias, afirmou que pacto orçamental europeu é “um tratado que os socialistas não podem ratificar”.
“O tratado prejudica a alternância política da União e contradiz textos estruturantes da construção europeia. Inviabiliza, por exemplo, a Europa Social e os estados sociais de cada um dos Estados membros”, escreveu Mário Soares, dois dias antes de Portugal se tornar o único país da União a ratificar o tratado, com os votos do PSD, CDS e PS.
Para Francisco Louçã, a entrevista de Mário Soares é mais um sinal de que “tem vindo a crescer o campo de oposição a uma política desastrosa que destrói o emprego e empobrece as pessoas”. A receita da troika, diz o coordenador da Comissão Política do Bloco, “é um desastre que está a arruinar o país. Isto é verdade agora, como já o era há um ano”, conclui.