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‘Meu, roubei o teu Corão!’

Um personagem inesperado impediu a queima pública de um Corão em Amarillo, Texas, derrotando mais um acto de islamofobia. Por Pepe Escobar, do Asia Times Online
Jacob Isom, o skatista-herói

Enquanto a islamofobia alcança proporções de fogueira das vaidades – envolvendo inúmeros ‘âncoras’ de televisão, políticos do Partido Republicano, gente do “Movimento Tea Party” e pregadores ensandecidos – cidadãos activos e preocupados em todo o mundo precisam saber que, sábado passado, o festival de ódio marcado para a praça onde se espera que seja construído a Cordoba House, o centro comunitário islâmico a alguns quarteirões de distância do Marco Zero em NY, foi absoluto fracasso; testemunhas disseram que havia mais jornalistas e câmaras de televisão do que islamófobos doidos.

Mas, em matéria de ilustração da derrota da islamofobia, nada se compara ao que aconteceu em Amarillo, Texas, naquele mesmo sábado. David Grisham, outro desses pregadores doidos que dirige uma daquelas organizações de islamófobos doidos, Repent Amarillo [Arrependa-se, Amarillo] planeava fazer a sua própria sessão televisionada de queimar-Corão, como apoio ao doido de Gainesville, Florida, pastor e celebridade global instantânea Terry Jones. E estava a um segundo de cometer o gesto tresloucado frente a 200 pessoas, quando, saído do nada, de repente, aparece…

… O mais improvável dos heróis, magro, de óculos, Jacob Isom (na foto), 23 anos, armado só com as suas costelas à vista, os seus óculos e o seu skate. O próprio Isom conta o que fez, ao repórter do Amarillo-Globe News: “Vim por trás dele, agarrei o Corão do tipo e disse alguma coisa como ‘Meu, roubei o teu Corão!’ e pus-me a milhas.”

O skatista-herói ainda disse, a um Grisham de olhos esbugalhados: “Você só quer iniciar guerras santas”. Em seguida, entregou o Corão, intacto, sem queimaduras, a um líder muçulmano local.

A organização Repent Amarillo é mais uma dessas típicas organizações de doidos norte-americanos, cujo material publicitário a identifica como “Exército de Deus”, formatado como os formulários de divulgação do alistamento militar. Cada um dos folhetos visa um público definido: gays, muçulmanos, anarquistas, ambientalistas, militantes pró-aborto, Halloween, “eventos de primavera” e publicidade de lojas de pornografia. O pessoal de Repent Amarillo chegou a liderar um boicote contra a presidente da Câmara eleita de Houston Annise Parker, que é lésbica. O lema do grupo é “Somos as Forças Especiais da guerra espiritual. Aliste-se!”

Um grupo de pessoas dos que acorreram ao local previsto para a queima de livros em Amarillo cercou a ‘pira incendiária’ para impedir que fosse acesa. Portanto, o que aconteceu em Amarillo não foi acto de um sujeito sozinho, agindo como cidadão exemplar.

Viu-se em Amarillo, Texas, o que também se viu (embora não pela televisão) no Festival pró Ódio próximo do Ground Zero: havia milhares de pessoas dispostas a impedir a queima de livros. Um dos cartazes dizia “Bons americanos não queimam Corãos”. De fato, no centro dessa reacção está apenas o respeito à Constituição dos EUA – que garante pleno direito de cada um praticar a religião que escolha.

Cairo, Cabul, Caxemira, Peshawar deveriam ser informados de que a vasta maioria dos norte-americanos também não são dominados pelo ódio e pelo medo e não se renderão a uma nova cruzada religiosa politicamente arquitectada.

Manobras radicais de skatistas ateus estão a indicar o caminho: nenhum fascista paramilitar sobrevive ao ridículo.

Bom seria que os norte-americanos começassem a lutar com os seus skates libertários também contra a guerra de aviões-robôs que o Pentágono faz contra civis afegãos.

Tradução de Caia Fittipaldi, Vila Vudu

Publicado em Outras Palavras

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