Dossier 206: Grécia - Crise humanitária sem precedentes

Em resultado das sucessivas medidas de austeridade impostas pelos governos da troika, o desemprego na Grécia atingiu níveis apenas observados em períodos históricos que se seguiram a desastres nacionais ou guerras, sendo que o país regista a maior taxa de desemprego da Europa (27%).

A receita austeritária do governo grego e da troika tem-se traduzido no aumento dos impostos diretos sobre o consumo e da tributação dos rendimentos de trabalhadores e pensionistas, ao mesmo tempo que se reduz a taxação a que estão sujeitos os lucros das empresas. Registou-se igualmente um aumento dos preços dos produtos básicos e bens essenciais e um acréscimo abrupto do preço da energia.

Após quatro anos de implementação, pelos governos da troika, de dois empréstimos e de três memorandos, a população grega está mais pobre, aumentou o número de crianças mal nutridas e registou-se um acréscimo da população de sem abrigo, concentrada, essencialmente, em Atenas e Pireus.

Mediante o agravamento da austeridade e a deterioração das condições de vida, a Grécia têm registado um aumento no número de suicídios. A incapacidade de fazer face às despesas com bens e serviços básicos tem levado ao desespero milhares de gregos, que não encontram outra solução senão pôr termo à sua vida.

Cortes nas pensões e nos salários que já ascendem a 50%, aumento da idade da reforma, aumento das contribuições dos trabalhadores e ataque aos direitos coletivos de trabalho. Esta é a receita aplicada na Grécia que tem mergulhado o país numa verdadeira calamidade social.

O mesmo governo que é responsável pelos 64% de desemprego jovem acusa os professores de “destruir os sonhos dos estudantes” por ameaçarem fazer greve no dia dos exames de acesso às universidades.

Os cortes provocados pela política de austeridade imposta pela troika estão a levar a uma grave deterioração da saúde pública na Grécia, segundo um novo estudo publicado pelo American Journal of Public Health. Explosão de suicídios e homicídios, aumento do número de casos de doenças mentais, de abuso de droga e de doenças infecciosas, nomeadamente VIH/Sida, são alguns dados referidos pelo estudo.

Numa entrevista concedida ao Contretemps, Roxane Mitralias, militante na SYRIZA, no CADTM, e na Frente de Esquerda sobre questões agrícolas e ecológicas, fala sobre a situação na Grécia e, particularmente, dos efeitos das políticas de austeridade em matéria de destruição do ambiente.

Na Grécia, tem vindo a registar-se uma escalada agressiva da onda de discriminação e violência incentivada pelo partido neonazi Aurora Dourada, com o beneplácito do governo e das forças policiais. Os principais alvos são os imigrantes, mas também se registam ataques e perseguições a militantes de esquerda, anarquistas, homossexuais e judeus.

Os cidadãos gregos têm rejeitado as políticas de austeridade impostas nos últimos anos recusando-se a ser a cobaia das terapias de choque que estão a causar uma verdadeira catástrofe social. A par de momentos de protestos massivos, que, em várias ocasiões, encheram as ruas do país, os cidadãos helénicos organizaram-se em movimentos de massa de resistência e solidariedade, baseando-se na premissa de que “Ninguém ficará sozinho na crise”.

A equipa de trabalho da iniciativa grega "Solidarity for All" respondeu a um conjunto de questões colocadas pelo esquerda.net sobre, por exemplo, o trabalho que desenvolvem e a sua relação com a coligação de esquerda Syriza.

Após uma missão de cinco dias na Grécia, o perito independente das Nações Unidas Cephas Lumina afirmou que as “medidas excessivamente rígidas” de austeridade impostas aos gregos levaram à contração da economia do país e à crise social e defendeu que “existem alternativas viáveis à austeridade”.