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A União Monetária Pós-Covid

As fragilidades da União Monetária encontram-se agora, mais que nunca, expostas. Resta-nos saber quem levará a melhor: se os Estados que pugnam por mais investimento público e uma resposta justa à crise, se os que querem o regresso à austeridade.

No passado dia 15 de maio, o BIS (Bank of International Settlements, uma entidade internacional de coordenação do sistema de Bancos Centrais) emitiu um relatório onde dava a conhecer a situação do mercado laboral europeu depois da pandemia de Covid-19. Engenhosamente, foram calculadas as exposições das regiões de cada país (ao nível NUT II) ao risco de desemprego usando 2 indicadores (cujos gráficos podemos ver abaixo): relatórios de Mobilidade disponibilizados pela app, que mostram o número de deslocações que os utilizadores de iPhone efetuam por dia; e número total de pesquisas pelo tópico “desemprego” no motor de pesquisa da Google. Assim, ao juntar estes dois indicadores por país e por NUT e ao compará-los com uma média europeia ao longo dos últimos meses, caiu por terra uma premissa repetida exaustivamente até agora: afinal, o choque económico causado por esta pandemia não é simétrico. Os resultados foram evidentes, os países do sul da Europa são os que apresentam uma maior percentagem da população em risco de desemprego devido a esta crise, como podemos ver no Mapa 1.

Anexo 1: População em risco de Desemprego, por NUT II. Eurostat; OECD; BIS Report

Mapa 1: População em risco de Desemprego, por NUT II. Eurostat; OECD; BIS Report

As razões? O próprio relatório apresenta duas. A primeira: nestas mesmas regiões onde o número de pesquisas pelo termo “desemprego” foi mais alto, o tecido empresarial é formado por mais pequenas e médias empresas que, por norma, não têm tanta capacidade de subsistência no mercado. A segunda: é também nestas regiões onde a concentração de empresas de setores mais afetados é maior. Isto é especialmente premente no caso português que, após a última crise, viu uma especialização em massa da sua economia e capacidade produtiva para o setor do turismo.

Anexo 2: Indicadores Usados (série temporal)  Apple Covid-19 Mobility Trends Reports; Google Trends; BIS Report - BIS Bulletin (2020): Covid-19 and regional employment in Europe; disponível em: https://www.bis.org/publ/bisbull16.htm

Gráficos: Indicadores Usados (série temporal) Apple Covid-19 Mobility Trends Reports; Google Trends; BIS Report - BIS Bulletin (2020): Covid-19 and regional employment in Europe; disponível em: https://www.bis.org/publ/bisbull16.htm

Mais interessante ainda são as considerações que este relatório nos permite tomar acerca do sistema monetário europeu e da maneira como este deverá responder a esta crise. Se a teoria das áreas monetárias ótimas já deixava bastante falhas, o pouco que previa avisa-nos agora do grande problema que se avizinha. Quando foi adotada a moeda única, o próprio Milton Friedman, arauto máximo das ideias liberais, avisou que este seria um passo precipitado na construção de uma suposta união política europeia. Dizia que esta união política dificilmente seria alcançada através de uma união monetária forçada. Muitos foram os que acreditaram que, mesmo que a união monetária na altura não fosse ótima para todos os países (mesmo para aqueles que apresentavam tendências inflacionárias crónicas, como o caso de Portugal e da Grécia), a maior integração possibilitaria uma maior sincronização dos ciclos económicos e, assim, uma maior eficácia do próprio sistema monetário. Isto foi refutado no pós-crash de 2008 que levou à crise das dívidas soberanas na Europa, quando os spreads das mesmas aumentaram exponencialmente nos países do sul da Europa, como Portugal, Espanha, Grécia e Itália. Assim, um choque externo rapidamente se tornou ainda mais assimétrico do que já era, tendo em conta os já existentes constrangimentos no acesso a crédito antes da crise.

Agora, mais uma vez, um novo choque exterior e ainda mais previsivelmente simétrico rapidamente se tornou no seu contrário. Isto porque, em parte, a ausência de uma política cambial dentro da União Monetária levou a que a reconstrução das economias de vários Estados-Membros, no rescaldo da última crise, levasse a um maior nível de especialização económica e regional das mesmas.

vários foram os economistas que já se apressaram a apontar mais austeridade como a solução profética. Começa a tornar-se difícil não comparar os mesmos com os bandos de senhores-corvos, equipados de pastas e fatos negros

Reconstrução esta que, tendo sido apressada e condicionada pelos constrangimentos que a política de austeridade imposta sobre os países do sul, provocou estas consequências evitáveis caso se tivesse optado por uma reestruturação pensada e negociada das dívidas soberanas. Ainda assim, parece importante refutar a ideia de que a austeridade foi um “mal necessário” e que este choque que hoje vivemos é simétrico, mas os seus impactos não o são, devido a “décadas de políticas erradas”, como, por exemplo, referiu António Nogueira Leite. Não foi o único. Nas últimas semanas, vários foram os economistas que já se apressaram a apontar mais austeridade como a solução profética. Começa a tornar-se difícil não comparar os mesmos com os bandos de senhores-corvos, equipados de pastas e fatos negros que, no romance de García Márquez, vêm explicar em nome da Companhia Bananeira que, afinal, Homens não são Homens e factos não são factos.

A verdade é que esta maior especialização levou a uma menor simetria nos efeitos dos choques económicos, tornando ainda mais inviável a União Monetária na sua arquitetura atual. Aliado a este problema, temos também uma década de política monetária não-convencional e um Banco Central Europeu que, não tendo mandato para intervir no mercado de dívida primário, pouco pode fazer para estabilizar as economias europeias de acordo com as suas especificidades. Não surpreende, assim, que a única solução de estabilização macroeconómica ao nível europeu que reúna um mínimo de consenso, passe por ainda mais dívida. Dívida esta que traz efeitos políticos não negligenciáveis para as democracias europeias, constrangendo ainda mais a política económica dos países – em especial do sul – durante as próximas décadas. Ainda maiores serão os constrangimentos económicos, como já vimos nos últimos anos, nomeadamente a incapacidade do BCE de aumentar as taxas de juro, face a pressões inflacionárias nos países do norte, sem colocar em causa a sustentabilidade orçamental dos países do sul e, assim, reacender a crise das dívidas soberanas.

O caminho deveria ser o de realocar recursos económicos no sentido de cumprir objetivos de neutralidade carbónica, desenvolvimento sustentável e aumentar a autossuficiência produtiva nacional em setores estratégicos

As fragilidades da União Monetária encontram-se agora, mais que nunca, expostas. Resta-nos saber quem levará a melhor o conflito: se os Estados que pugnam por mais investimento público e uma resposta justa à crise, se os que querem o regresso à austeridade que apenas tornará a aprofundar as falhas do sistema. Serão necessários, sim, incentivos à reindustrialização sustentável (económica e ambientalmente) destas regiões mais afetadas. O caminho deveria ser, sim, o de realocar recursos económicos no sentido de cumprir objetivos de neutralidade carbónica, desenvolvimento sustentável e aumentar a autossuficiência produtiva nacional em setores estratégicos. Tudo isto deve ser feito com respeito pelos direitos dos trabalhadores, sem permitir que sejam, novamente, estes a pagar os efeitos da crise. É essencial, assim, não deixar ninguém para trás, apostando em políticas de formação de adultos para promover um reajustamento justo ao novo paradigma económico, reforçando o papel de redistribuição do estado e as suas políticas sociais.

Acima de tudo, é importante não acompanhar a ideia de que a política económica e monetária deve ser algo monolítico, cujas respostas são as mesmas para as mais variadas circunstâncias, mesmo quando já se provou os efeitos nefastos que tiveram em crises passadas. A sociedade portuguesa parece já ter evoluído para lá da justificação para a austeridade, resta saber se a Europa também.

Sobre o/a autor(a)

20 anos. Aluno do 3º ano da licenciatura em Economia da Nova SBE. Membro do Bloco de Esquerda
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