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Uma questão civilizacional

Quem, na Direita portuguesa, hoje parece apreciar de bancada as notícias falsas por serem dirigidas à Esquerda, que não se engane. Chegará a sua vez.

A verdade e a mentira são as duas faces de uma moeda há muito jogada no confronto político. As guerras de contrainformação, a manipulação de massas, a distorção de factos e da realidade são antigas. Qual a novidade, então, das chamadas fake news e porque são uma ameaça tão grande para as nossas democracias?

O espaço público mudou. Já não são só as ruas, os cafés, praças e jardins. É o nosso telemóvel ou o computador que se tornaram parte dos nossos processos de construção de relações sociais. Desse ponto de vista, as redes sociais como o Facebook, Twitter, WhatsApp ou Instagram passaram a ser pilares fundamentais para o relacionamento com os outros.

A forma como apreendemos a informação sofreu, nos últimos anos, enormes transformações. A Internet torna todo o mundo mais plano e próximo, dispondo informação de qualquer lugar na ponta dos nossos dedos numa questão de microssegundos. E as redes sociais, das quais o Facebook é o recordista, já ocupam mais tempo na nossa vida do que a leitura de jornais, como reportam as últimas análises comportamentais da população nacional.

É neste caldo tecnológico e comportamental que bots e trolls invadiram as nossas vidas de rompante, mesmo sem darmos por isso. Que bichos estranhos são estes? Os bots são perfis falsos das redes sociais, completamente automatizados, usados para difundir massivamente informação (muitas vezes falsa). Os trolls são pessoas com um comportamento propositadamente desestabilizador das discussões nas redes sociais, frequentemente provocadoras e insultuosas. Juntos formam um exército que ataca concertadamente os nossos regimes democráticos. A munição principal deste ataque são os sites de notícias falsas, as tais fake news. Textos que contêm informação falsa, construídos como se fossem notícias genuínas, apresentando um título bombástico e uma fotografia apelativa e chocante.

Há um outro aspeto fundamental nesta tática de difusão de informação falsa: os sites não têm informação de responsáveis e estão sediados em países onde não há regras de transparência. É o ditado “atira a pedra e esconde a mão” transposto para o século XXI.

Não se engane, quem faz isto não são engraçadinhos com muito tempo livre, são criminosos altamente organizados e principescamente financiados. Estudaram a fundo o modo de funcionamento das redes sociais, os seus algoritmos, as suas regras e utilizam essa informação para potenciar o alcance das mentiras que partilham. Têm, até, acesso à informação das pessoas, como demonstrou o caso da empresa Cambridge Analytica, que tendo as “portas abertas” do Facebook roubou dados de 50 milhões dos seus utilizadores.

Quem financia estes ataques? A lista é longa, vai desde a nomenklatura russa até aos mais obscuros movimentos de extrema-direita. Já chegaram cá a Portugal, onde circularam notícias falsas sobre a Catarina Martins ou sobre António Costa, e que uma investigação do Diário de Notícias permitiu identificar como apoiantes de Trump ou ex-dirigentes do CDS. A calúnia é a arma de arremesso destes extremistas, com mensagens de ódio e violência.

Esta mistura de informação falsa e odiosa está a minar o debate público. Tiveram impacto direto em resultados eleitorais como foi o caso nas presidenciais norte-americanas, o referendo do "Brexit" ou a última eleição presidencial brasileira.

Como a distinção entre o que é real e o que é falso é cada vez mais difícil, cria-se uma desconfiança generalizada. Essa desconfiança retira a discussão política do debate sobre a realidade para um debate sobre as perceções de cada um, novamente distorcidas pela informação falsa difundida pelas redes sociais. É um ciclo vicioso que tem de ser rompido e perante o qual não podemos ser indiferentes.

Artigo publicado em 6 de novembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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