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Uma mão vazia, outra cheia de nada, assim vai a cultura

Museu do tesouro, colecções particulares fantásticas, tantos ahs e tantos ohs mas, afinal, depois de muito espremer, o rei vai nu! A desolação ainda mora na Ajuda.

Neste mesmo espaço referi há pouco mais de uma semana que não podíamos confiar neste Ministro da Cultura. E tenho saudades do tempo em que era colunista do Expresso, sempre dava gosto lê-lo. Agora não encontro motivo para ficar contente, quando muito esperançosa. O Ministro já deu entrevistas escritas e orais, para quem não conhecer o sector ou para quem seja muito distraído, as afirmações soam bem, promissoras, é agora. Como não apoio a atitude do bota-abaixo, aguardei. Passa-se o tempo e a expectativa esmorece, vamos ficar na mesma penso comigo própria.

Infelizmente, o tempo confirma os meus receios. No âmbito da discussão do OE, o Ministro falou e disse. Disse poucachinho, tem arte no que diz e é preciso ler o texto da intervenção com cuidado. Passo a resumir: agora é que é, o ministério vai contratar pessoal para a vigilância dos museus (na ordem dos 70) e vai contratar conservadores-restauradores, 40. O número de vigilantes parece substancial mas isso é se não dividirmos este número pelos número de museus absolutamente carenciados. Aí o entusiasmo esfuma-se. Com os conservadores-restauradores, pior, porque o Ministro anunciou que se destinam ao Instituto José de Figueiredo. Claro que o Instituto merece estes 40 profissionais qualificados, quiçá mereceria muitos mais, para evitar a situação de as oficinas ficarem desertas e o saber acumulado não ser transmitido às gerações mais novas mas por esse país fora, o que vai acontecer às unidades de conservação e restauro igualmente carentes de recursos humanos? E donde é que saem assim, do pé para a mão, esses 40 técnicos qualificados? Trabalhei na área, os técnicos que as escolas produziam estavam empregados, não havia sobras. Admitindo que agora haja, técnicos de conservação e restauro são especializados (um especialista em têxtil não trabalha em madeira ou um especialista em papel não trabalha em escultura…) e, portanto, mesmo admitindo que uma reciclagem pode fazer milagres, estamos longe do cenário luminoso que o Ministro tentou passar na Assembleia.

Procurando não ser pessimista, partamos do pressuposto que os museus vão ficar servidos (custa-me admitir este pressuposto de tão irreal que ele é) mas fica de fora um larguíssimo sector da Cultura que ainda não chamou a atenção do Ministro, ou seja, todo o sector que é responsável pelo património escrito, bibliográfico ou arquivístico. Não consigo lembrar-me de uma única intervenção do Ministro que se refira a este sector o qual é tão responsável pela nossa memória colectiva e identidade como os museus. Não há uns mais importantes que outros, são todos indispensáveis, só todos sintonizados somos nós. Tal como acontece com os museus, também estão carenciados de recursos humanos qualificados, também precisam de ver espaços e equipamentos renovados, precisam de conservar e desenvolver as colecções. As bibliotecas sobretudo precisam de continuamente actualizar as colecções não recorrendo ao Depósito Legal como bengala, pobre sector editorial. Sobretudo as bibliotecas patrimoniais precisam de ter verbas para comprar livros, documentos, que possam aparecer no mercado e que completem as suas áreas de interesse garantindo uma incessante actualização ao serviço da investigação e do conhecimento. Os arquivos têm de zelar pela guarda e conservação do material que vai sendo diariamente produzido e têm de assegurar a incorporação de fundos que ainda andem por aí enquanto têm de estabelecer acordos com instituições particulares para consulta e preservação dos mesmos. E como a cereja no topo do bolo, todo este universo, seja bibliográfico seja arquivístico, tem de estar tratado e disponível em bases de dados fiáveis. Todo um trabalho que a inteligência artificial não sabe resolver, uma dedicação a exigir historiadores, bibliotecários, arquivistas, conservadores-restauradores e outros tantos que não vou listar.

Como nas oficinas de conservação e restauro, também nas oficinas de encadernação, de digitalização, de tratamento documental existem práticas e conhecimento que estão ausentes dos manuais, logo, das escolas. É no dia-a-dia que se aprende muito destas profissões. Deixar que se reformem os técnicos que ainda restam para depois contratar novos, bom, é começar tudo de novo desde a arrumação e localização de documentos aos pequenos pormenores que se dominam com muito empenho e durante anos na companhia de colegas mais batidos.

Como a entrada de pessoal para os museus, e podia ser para bibliotecas e arquivos, vai demorar algum tempo (as regras da administração pública são taxativas e inultrapassáveis), a não ser que o Ministro consiga sacar um coelho da cartola, a promessa do Ministro só deverá concretizar-se lá para o início do verão de 2023 o que, convenhamos, é uma eternidade. O Ministro enquadra-se bem neste elenco governativo caracterizado por uma linguagem perifrástica, há-de acontecer. Sobram motivos para estar intranquila e desconfiada.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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