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Uma coisa está a acontecer...

A narrativa dos comentadores da direita tem sido que a coligação ganhou, logo, deve formar governo, porque uma solução à esquerda é batota. Já não é batota, não é "ganhar na secretaria", o querer continuar com a mesma política de austeridade chumbada pelo povo nas urnas!?

Eu julgava que a eleição para a Assembleia da República era para eleger deputados para o Parlamento, em número proporcional, pelo método de Hondt, aos votos recolhidos por cada partido dentro de cada círculo eleitoral.

Eu julgava que era assim, mas não. Afinal as eleições para a Assembleia da República eram para eleger o primeiro-ministro, melhor, um primeiro-ministro, a fazer lembrar tempos idos (os da famigerada Assembleia Nacional).

A ser assim, havendo um partido mais votado, é simples, o "chefe" desse partido é o primeiro-ministro. Não é esta a regra numa boa parte da Europa que serve de exemplo para outras coisas mas, pelos vistos, é esta a regra em Portugal… E não sei mesmo por que é que ainda ninguém alvitrou que deveria haver lugar a uma segunda volta das legislativas para a escolha do primeiro-ministro!?...

Pode chegar o dia em que cada um dos partidos, exceto um, não ultrapasse 1%. Isso é matematicamente possível e o MRPP com a sua votação de 1,1% ganharia as eleições. Tínhamos primeiro-ministro, com a vantagem de Garcia Pereira não ser importunado por incompetente ou outras coisas piores…

Quando votei numa mesa em Faro, a minha ideia é que estava a votar na lista do círculo eleitoral de Faro, encabeçada por João Vasconcelos. Claro que eu sabia que, ao fim e ao cabo, a não haver maioria absoluta de um só partido/coligação, a escolha do primeiro-ministro haveria de resultar da maioria dos deputados eleitos... Catarina Martins que me desculpe, mas confesso que quando votei não estava a pensar e nem alimentava nenhuma "fezada" que o meu voto poderia pô-la em primeira-ministra, como penso que quem votou no PAN não estava a pensar que André Lourenço e Silva pudesse vir a ser primeiro-ministro. Era assim que eu pensava – naturalmente, serei a exceção que confirma a regra... – mas, pelos vistos, pensava mal: quando votei no Bloco eu, afinal, estava a votar na dupla Passos/Portas. Uma análise cuidada da forma como desenhei a cruzinha permitiria concluir que eu votava em Passos para 1º ministro, Portas para 2º ministro e assim por diante, de modo a que tudo se encaixasse na divina vontade do "deus nosso senhor mercado" e de Cavaco Silva, seu mensageiro na Lusa Terra.

Ora acontece que, depois de ter desgraçado o País, mesmo assim a coligação PàF conseguiu ter mais votos, só que com um "pequeno" contratempo, os mais de 700 mil que perdeu fez com que, na Assembleia da República, fique com menos deputados do que os outros.

Os comparsas da troika, representantes da Europa da alta finança, franziram o sobrolho à socapa, mas logo trataram de fazer vista grossa, mandando a grande imprensa europeia de direita – desde o El Pais ao Guardian, passando pelo Figaro – como que refazer os resultados eleitorais, realçando a vitória da coligação de direita e uma suposta vontade expressa, por parte do povo português, de continuação da política de austeridade. Apesar de, para o presidente do Eurogrupo – aquele fuinha do mestrado falso, uma espécie de Relvas em versão holandesa – os resultados terem sido ambíguos, se algo o povo mostrou foi que estava farto da política da direita.

Não demoraram os lamentos da direita europeia pelo estorvo que às vezes constitui a democracia, justificados pelos espirros que se adivinhavam por parte dos sacrossantos mercados.

Até agora, a narrativa dos comentadores da direita – ou seja, de quase todos os comentadores... – tem sido que a coligação ganhou, logo, deve formar governo, porque uma solução à esquerda é batota. Já não é batota, não é "ganhar na secretaria", o querer continuar com a mesma política de austeridade chumbada pelo povo nas urnas!? Ora, como está previsto que o governo dependa da Assembleia da República e, nesta, a maioria dos deputados pertence a partidos que na campanha eleitoral estiveram contra a austeridade, uma solução cumpridora da vontade do povo era o paradoxo de termos o governo da austeridade de Passos a governar com políticas antiausteridade... Que tal?...

Para o efeito, adivinhamos que Passos – detentor de um curso de Economia que se adivinha tirado às três pancadas – precise de umas explicações sobre a origem da crise financeira e das dívidas públicas, sobre as agências de rating, os offshores, sobre a história dos mafiosos donos de Portugal e do Mundo. Uma vez que ficava muito caro chamar Varoufakis para umas aulas ao domicílio, que tal umas explicações dadas por Mariana Mortágua ou Castro Caldas, Ferreira do Amaral, Louçã, José Reis ou Eugénio Rosa? Compreende-se o embaraço, pelo que uma sugestão era recorrer a Ferreira Leite. Daria apenas para não repetir algumas asneiras menores, mas havia a vantagem de ficar tudo em família sem dar tanta bandeira…

Como é sabido, desde tempos imemoriais que o interesse dos povos se confunde com o desejo das cliques que os dominam. Os Reis Sol não desistem de querer sê-lo, pelo que estamos a assistir a uma montanha de escolhos que estão a ser colocados no caminho para que não exista em Portugal um governo fora do chamado arco da governação. Quem se preocupa com a pretensa batota, são os mesmos que durante 4 anos reverenciaram as agências de rating, aceitaram a mentira e o empobrecimento do País em resultado da agiotagem da alta finança.

Aquela que será a última cartada da direita parece ser a de contar com a não unanimidade dentro do PS. Já ouvi dizer que os 9 deputados que faltam para ter maioria, a PàF os pode ir buscar à bancada do PS. Há anos foi preciso um “queijo limiano” para o PS poder ter a maioria, a direita parece agora sonhar com o pagamento com juros, 9 "queijos limianos" é o quantum satis.

Passos parece que adivinhava e advertiu o povo para que disso não houvesse necessidade: "Vejam lá se querem correr o risco de na 2ª feira acordarem com um primeiro-ministro que não pertence ao partido mais votado!" Não obstante, depois de tão avisadas palavras, mais de 60% do povo não lhe ligou nenhuma...

A política do vale tudo para recuperar o poder perdido nas urnas pode, ainda desta vez, dar frutos para a direita, mas uma coisa está a acontecer, a direita está a deixar de conseguir incutir a ideia de que não há soluções à esquerda e de que é leproso sem direito de admissão quem resiste a ficar de joelhos e se atreve a afrontar o status quo imposto pela alta finança. Por conseguinte, uma política de esquerda começa a ter pés para andar em Portugal. Em Portugal, na Europa e no Mundo. Porque, apesar do esmagador TINA (There Is No Alternative), se vai percebendo aqui e ali que outro mundo é possível.

20 de outubro de 2015

Artigo publicado em algarve.bloco.org

Sobre o/a autor(a)

Professor aposentado, autarca em Faro
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