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Um vírus que não é democrático e o país fraturado

Ao invés da imagem “democrática” que se quer colar, o vírus revelou e multiplicou as desigualdades preexistentes.

Um ano depois da pandemia, Portugal é um país mais atrasado, mais pobre e mais desigual. Não ignoro que, no processo, se mostraram forças valiosas: a resistência do Serviço Nacional de Saúde; a ativação de redes de solidariedade familiar, de vizinhança ou da sociedade civil organizada (movimentos, igrejas, associações, autarquias); o exemplo vivo de profissionais da saúde, bombeiros, cuidadores, etc.

Contudo, o vírus, ao invés da imagem “democrática” que se quer colar, revelou e multiplicou as desigualdades preexistentes. Revelou, por exemplo, um universo de lares ilegais, sem condições mínimas, tolerados pelo Estado naquela atitude tão periférica e manhosa de fechar os olhos para não dar resposta. Nesses lares, como em muitos outros legalizados, os idosos esperam a morte, amontoados, em salas e quartos sobrelotados, sem os cuidados médicos necessários e desprovidos de esperança ou projeto. O vírus atacou-os impiedosamente, até porque faltaram as equipas de emergência e o suporte multidisciplinar que se exigia. Atacou-os, é bom que se escreva, porque eram velhos, pobres e desprotegidos. O que existe de democrático ou aleatório nessa tragédia direcionada?

De igual modo, as populações socialmente relegadas foram particularmente fustigadas. Elas e eles, os que trabalham sem poder recorrer à nuvem do ciberespaço, que produzem, que cuidam dos outros, que viajam em transportes públicos apinhados, que constroem as casas – nenhum descanso lhes foi dado, nenhuma proteção lhes foi conferida. Desesperaram por apoios sociais tardiamente atribuídos, propositadamente mal desenhados, com pressupostos e requisitos absurdos, esbarrando numa muralha de obstáculos e contradições dos aparelhos burocráticos que estão longe de ser neutros (ou democráticos) e que penalizam duplamente quem tem um pior acesso à informação, à literacia, a redes de contactos e à desenvoltura linguística.

As crianças socialmente vulneráveis, vivendo e estudando em casas desconfortáveis, frias e com débeis ligações à Internet são a prova viva da ilusão tão eufórica como mentirosa de um país promotor da equidade digital, já que faltam os computadores, o acesso e o enquadramento dos jovens utilizadores.

Muitas das consequências socialmente distintas da pandemia far-se-ão notar ao longo do tempo, não só porque se incrustaram em formas de sofrimento pessoal e social preexistente, intensificando-o, mas também porque as estruturas sociais enfraqueceram e os indicadores que medirão o impacto (as taxas de pobreza e de privação) demoram tempo a serem recolhidos e tratados.

Sobra o país atávico, o do “respeitinho”, das hierarquias, títulos e comendas. O senhor presidente da Câmara, o senhor provedor, o senhor doutor, enfim, um bando de notáveis sem escrúpulos que conseguiu a vacina furando critérios que se pretendiam impessoais e genéricos, porque as suas estultas pessoas são reconhecidas como santidades no altar dos privilégios.

Esta pandemia combate-se com medidas sanitárias (hospitais bem apetrechados, profissionais de saúde reconhecidos e com carreiras atrativas, redes de cuidados continuados, investigação científica avançada, patentes abertas) e, sobretudo, com políticas do comum, do público, da solidariedade. Hoje, perante o assalto larvar dos velhos e novos autoritarismos, temos a obrigação de saber o chão em que medram o medo, a vulnerabilidade, a insegurança, a incerteza e a falta de um projeto de futuro.

Por isso, o vírus também se combate com democracia, essoutra maneira de pronunciar a justiça. Quem pensar que a normalidade é um mero regresso ao passado, engana-se tragicamente. A catástrofe ecológica (destruição dos ecossistemas e do habitat dos animais selvagens) permitiu que o vírus transpusesse a barreira das espécies. A desigualdade social e a fraqueza dos Estados, depauperados por anos e anos de austeridade, fizeram o resto. Não culpem o vírus.


Artigo publicado em Notícias Magazine, 13 março 2021

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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