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Um ano depois, não é hora de desistir

O que a Europa viveu neste ano foi um turbilhão que ninguém podia antecipar. E ainda bem. Os tempos mais interessantes da história são aqueles em que o futuro está em aberto.

Começámos o ano com uma esperança autêntica. A vitória do Syriza na Grécia traduzia um movimento popular que lá, como no resto da Europa, enfrentou sem medos uma mudança política de direita totalmente radicalizada e que encontrou no chamado “consenso europeu” o seu mais eficaz balão de oxigénio. Na primeira metade do ano, a esquerda grega conseguiu ser protagonista do maior confronto de classe que a Europa conheceu desde o consenso neoliberal que fechou o século passado. Foi o programa da esquerda europeia que entrou no centro da disputa política europeia e foi ele que mostrou ao mundo a brutal contradição entre o capitalismo e a democracia na Europa do nosso tempo.

Em Portugal houve quem não baixasse os braços depois da derrota grega e levasse a eleições um discurso claro de rutura com as orientações políticas da Europa da austeridade

Na viragem da metade do ano, a esperança deu lugar a um sabor amargo da derrota. O fracasso do governo grego perante a dureza radical das instituições europeias foi demasiado pesado. Haverá vários fatores para explicar a derrota, desde logo, o isolamento do governo grego no quadro europeu e a capitulação total da social-democracia e dos partidos socialistas às ordens de Merkel. Mas a derrota funda-se também nas contradições internas da situação grega, a saber, o facto a maioria dos gregos rejeitar a austeridade e querer simultaneamente continuar no euro e o desaconselhável otimismo da liderança grega de que era possível vencer com sucesso um conflito de David contra Golias, sem preparar qualquer outra solução alternativa. A ausência de outras opções fez com que a Grécia entrasse em eminente colapso pela ação do BCE e que não preparasse uma saída do euro que pudesse ser suportada por um movimento popular radicalizado à esquerda. O governo grego confiou demasiado no seu próprio sucesso e não se preparou. Viu-se obrigado a capitular e teve como trágica consequência uma divisão dentro do seu partido.

Mas se a disputa do governo grego ocorreu em condições de total isolamento político nos primeiros meses de 2015, os primeiros meses de 2016 podem revelar mudanças com consequências também elas imprevisíveis.

Em Portugal houve quem não baixasse os braços depois da derrota grega e levasse a eleições um discurso claro de rutura com as orientações políticas da Europa da austeridade. As forças protagonistas desse discurso, o Bloco e o PCP, foram decisivos para impedir a continuação do programa radical da direita PSD-CDS e sobretudo para impedir a possibilidade de um acordo de bloco central que teria consequências políticas e sociais duríssimas para o povo português.

É certo que o PS chegou a estas eleições com um discurso cínico em relação aos partidos à sua esquerda. Diziam que não se pode ter um programa de rutura com a política europeia, porque isso não tem qualquer aceitação no centro europeu, como se viu no caso grego. O problema é que o PS se esqueceu de lembrar que os partidos da sua família foram compagnons de route de quem quis destruir a possibilidade da Grécia romper com a austeridade no seu país. Hoje o governo português, e os partidos de esquerda que o suportam, terão de enfrentar o problema de saber se será possível aplicar um programa de reversão da austeridade, de rompimento com o empobrecimento e de avanços sociais, sem uma rutura com as atuais orientações políticas e institucionais da Europa. Mas a possibilidade de Portugal ter esse discurso e essa disputa na Europa abre um caminho de esperança para quem nas ruas tem exigido dignidade, em vez de subserviência.

A essa tensão entre o governo português e a Europa, que chegará mais cedo que tarde, junta-se o cenário espanhol, ainda totalmente em aberto. O fim do bipartidarismo foi uma conquista histórica do movimento popular e da capacidade de interpretação política dos seus anseios. A cartomancia política não é boa conselheira, mas a possibilidade que se abriu de que o PP não continue no governo e possa ser substituído por um governo com um discurso político distinto do seguidismo de Raroy a Merkel, pode abrir um terramoto político na Europa.

De uma situação de isolamento, podemos passar a uma situação de um grande bloco do sul da Europa que do ponto de vista económico, social e político, se agir em conjunto, tem peso suficiente para aguentar mais do que uma cimeira às ordens de Schauble e Merkel.

O futuro pode retomar amanhã e só podemos estar disponíveis para tomar a história nas nossas mãos. Definitivamente, não é hora de desistir.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e investigador
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