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Troika e foge

O episódio da votação apressada do Orçamento de Estado, combinado com a radicalização ideológica dos discursos do PSD e do CDS, mostram um Governo acossado e que está por tudo.

O Governo decidiu votar à pressa o Orçamento de Estado, antecipando o horário previsto para o encerramento do debate. O objetivo foi fugir de São Bento antes da chegada dos protestos contra a troika e o assalto fiscal. E a bancada do PS, comprometida com o memorando de empobrecimento, não se opôs à estratégia de fuga.

Depois de falhadas as metas do Orçamento para 2012, Passos Coelho, Paulo Portas e Vítor Gaspar apostam em agravar a crise social para conseguirem "refundar" as funções do Estado, ou seja, diminui-las ao ponto de na prática acabar com a proteção social que ainda existe no apoio aos desempregados, na Saúde ou na Escola Pública. E ao mesmo tempo entregar aos privados o que demorou décadas a construir com o esforço de várias gerações, do abastecimento de águas aos aeroportos, do audiovisual público à energia.

A deriva neoliberal do Governo ficou patente nas palavras do ministro Mota Soares, quando defendeu a redução do montante e do prazo do subsídio de desemprego como um incentivo ao regresso ao mercado de trabalho. E encontrou eco nos banqueiros, os principais beneficiários do empréstimo da troika, com Ulrich a garantir que se os gregos ainda estão vivos é sinal que os portugueses ainda aguentam mais austeridade.

Por outro lado, faz sentido que o Governo fuja a dar a cara por um Orçamento em que nenhum dos seus membros acredita e que está condenado ao chumbo do Tribunal Constitucional. A radicalização ideológica do discurso é o primeiro passo para uma reedição da chantagem a que assistimos no período pré-eleitoral, quando daqui a uns meses apresentarem ao povo as condições para um segundo empréstimo da troika.

Temos hoje um Governo acossado, um Orçamento condenado e um Presidente da República calado. A poucos dias da visita de Angela Merkel e da Greve Geral no Sul da Europa, esta é a altura para voltar a exigir o fim deste filme de terror e de um Governo que age em função dos interesses do sistema financeiro e condena o povo à miséria.

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