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Transformar eleitores em ativistas

É preciso garantir que preservamos a mensagem, o espírito de inconformação e a luta que nos caracterizam.

Após estas eleições presidenciais, impõe-se à Esquerda uma profunda reflexão. Não nos enganemos. Independentemente do excelente resultado da Marisa, da onda de esperança que se gerou à volta da candidatura e dos temas fundamentais a que foi dada visibilidade, a Esquerda como todo, pelos resultados que teve e ao não conseguir levar Marcelo à segunda volta, sofreu uma derrota retumbante. Enfrentámos um candidato da direita que não expressou uma única ideia concreta durante a campanha, que teve uma prestação fraquíssima em todos os debates, que se limitou a deixar andar o seu aparelho de propaganda, montado pelos interesses económicos que controlam os meios de comunicação, e ganhou. E não se pode dizer que seja uma surpresa. Sem percebermos, já interiorizámos há muito tempo que quem tiver os media ao seu lado ganha eleições.

Face à brutal demonstração de força dos media corporativos que foi a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa, é urgente ponderar seriamente como queremos levar às massas as nossas ideias. O modelo eleitoralista focado na exposição mediática que as instituições nos procuram impor não nos chega. Não nos chega, nem permite chegar aos milhões de trabalhadores, estudantes, pensionistas e desempregados que veem os seus direitos serem retirados todos dias, e que cada vez menos se revêm numa democracia distante deles. Uma democracia que se limita a outdoors e tempos de antena, a uma cobertura facciosa no jornal da noite e a colocar um voto nas urnas de x em x anos, é uma democracia pobre e morta. A gigantesca abstenção (51,16%) que vimos estas presidenciais foi a melhor ilustração disto.

Independentemente dos excelentes resultados do Bloco nos últimos momentos eleitorais, e das vitórias que conseguimos, vemo-nos confrontados com vários eixos de luta. Queremos agregar na nossa luta eleitores passivos, ou catalisar ativistas? Queremos comunicar com as populações através dos media tradicionais, ou abrir novas vias de comunicação? Seja através de ação direta dos nossos militantes, seja através de estruturas e assembleias locais de decisão democrática, seja apoiando coletivos com projetos transformadores. Tudo isto conjugado com uma aposta clara no reforço dos nossos próprios meios de comunicação, na criação de uma imprensa alternativa que exponha as nossas posições de uma maneira que os media corporativos nunca farão.

Cabe-nos a nós como Bloco e como esquerda, reafirmarmos o compromisso de representar aos não representados pela máquina institucional. Voltar a trazer a política para a vida de milhões de pessoas desafetas e desiludidas com um sistema construído para as alienar. Pessoas que todos os dias são espezinhadas por um modo de produção que visa a acumulação de riqueza do patronato e a exploração crescente do trabalhador, e que no entanto não veem uma saída, uma outra opção. É por estas pessoas que nos cabe construir uma alternativa, pô-la em prática e levá-la às pessoas. Lembrá-las que não queremos uma democracia meramente representativa, em que apenas votamos em outrem para que pense e tome as decisões por nós, mas que queremos que cada pessoa tome nas suas mãos o poder de debate e decisão. Queremos uma democracia real, fraterna e direta.

Não podemos confrontar a hegemonia capitalista sem agir também fora dos círculos em que esta se propaga. Ao termos de mastigar a narrativa que levamos às pessoas para que esta passe os bloqueios de editores e jornalistas facciosos, estamos sempre em desvantagem, combatemos num terreno inclinado. Só ganharemos nos media burgueses o terreno que os interesses económicos nos deixarem ganhar, e o dia em que a cobertura mediática for imparcial, é o dia em que não incomodamos o status quo.

Não se faz uma revolução sem força onde somos fortes. Nas ruas, junto das pessoas, onde a direita representante do Capital não sabe, nem se quer posicionar. Se nós representamos trabalhadores, minorias étnicas, mulheres vítimas de opressão, imigrantes e emigrados, reformados e estudantes que não veem à sua frente nada mais que precariedade, é junto destes que temos de trabalhar, e é aí que seremos fortes. Valorizando o papel de cada ativista como intelectual por direito próprio, dando-lhe relevo como peça fundamental na construção de contra-hegemonia.

O posicionamento face a estas duas maneiras diferentes de discutir política, a mediática e a popular, também altera o conteúdo. Ao apenas disputarmos espaço em órgãos de comunicação verticais, há uma tendência para entrar miopia, para discutir carisma em vez de ideias e diluir o discurso. Ao termos apenas uma ação mais direta, conseguimos ter um discurso mais vincado ideologicamente, e uma proximidade muito maior das pessoas, mas corremos o risco de alienar sectores da população fundamentais.

Na minha opinião, ambos os eixos de luta são fundamentais. Fazem parte de um partido plural como o Bloco, no qual convivem os mais variados pontos de vista com um objetivo comum. Um partido que não pretende defender posições estáticas e cristalizadas, mas sim ser a súmula das justas aspirações de todos aqueles que são esmagados por um sistema económico e político que favorece uma minoria privilegiada. Para sermos verdadeiramente o agregar de fortes movimentações sociais, teremos de chegar ao máximo número de pessoas, sim. No entanto, é preciso garantir que preservamos a mensagem, o espírito de inconformação e a luta que nos caracterizam. Importa refletir se queremos ser apenas um fôlego de ar fresco num sistema injusto, ou transformar completamente esse sistema.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Biologia e militante do Bloco de Esquerda
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