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Terrorismo Nuclear em Espanha

O Conselho de Segurança Nuclear pretende agora que as centrais nucleares espanholas deixem simplesmente de ter tempo de vida e que tenham apenas de ser verificadas de dez em dez anos.

Existe uma organização terrorista em Espanha que dá pelo nome de Conselho de Segurança Nuclear. A organização, responsável pela regulamentação das 7 centrais nucleares do nosso país vizinho (incluindo Almaraz), depois de decidir reabrir uma central nuclear fechada desde 2012 (Garoña), pretende agora que as centrais nucleares espanholas deixem simplesmente de ter tempo de vida e que tenham apenas de ser verificadas de dez em dez anos. As licenças de funcionamento como a de Almaraz, que já passou em seis anos o seu tempo de vida, estender-se-iam basicamente até as centrais rebentarem.

Chegamos a novos cúmulos. Se a ação desenvolvida até hoje pelo Conselho de Segurança Nuclear (CSN) espanhol se pautava pela irresponsabilidade crónica, pelo serviço às empresas energéticas e nucleares com total desrespeito pela segurança tanto das centrais como do país onde as mesmas estão (e nossa, vizinhos desse país), a partir de agora não é um exagero chamar terrorista a este órgão, para o qual os dois maiores partidos espanhóis nomeiam presidentes e conselheiros. A proposta é demasiado grave: o CSN pretende que sejam dadas novas autorizações de exploração às centraisespanholas sem qualquer limite temporal, submetendo-se apenas a uma revisão gerala cada dez anos.

O objetivo, segundo a imprensa espanhola, é perpetuar as rendas garantidas às empresas proprietárias das centrais, que tinham no máximo tempos de vida de 40 anos. Com a gigantesca pressão política contra a continuação da energia nuclear (tanto do lado do Estado Espanhol, como do lado português), o CSN quer garantir às energéticas gigantescas indemnizações caso se cumpra a vontade popular de fechar as bombas atómicas que pulsam diariamente nos sistemas velhos e enferrujados das centrais dos anos 70 que já deviam ter sido todas fechadas (segundo o prazo de validade definido pela indústria nuclear, não por ambientalistas).

É importante conhecer os nomes dos cinco membros destaorganização terrorista, o Conselho de Segurança Nuclear:

- Fernando Marti Scharfhausen (Presidente, ex-funcionário da Repsol e ex-secretário de Estado da Energia do Partido Popular);

- Rosario Velasco García (Vice-Presidenta, médica e ex-deputada pelo PSOE);

- Fernando Castelló Boronat (Conselheiro, ex-secretário de Estado da Segurança Social e ex-deputado do Partido Popular);

- Javier Dies Lovera (Conselheiro, engenheiro industrial, ex-funcionário da Organização Internacional de Energia Atómica, indicado pelo Partido Popular);

- Cristina Narbona Ruiz (Conselheira, economista, ex-secretária de Estado do Ambiente e da Habitação, ex-Ministra do Ambiente e ex-deputada do PSOE).

Estas cinco pessoas estão a dizer a toda a Península Ibérica que teremos centrais nucleares a operar até termos um grande acidente nuclear, o nosso Chernobyl ou Fukushima ibérico.

Poucos dias depois de mais um grave acidente na central nuclear de Flamanville, em França, onde houve uma explosão na sala das máquinas do Reator 1 (não havendo desde então mais notícias, o que no caso do nuclear é sempre suspeito), e sabendo-se hoje que Fukushima voltou aos níveis de radiação similares aos do acidente em 2011, o CSN autorizou ainda a reabertura dacentral de Garoña, em Burgos, que estava encerrada desde 2012. As empresas proprietárias da central (Iberdrola e Endesa) nem sequer disseram estar interessadas em continuar com Garoña, o que revela ainda mais um motivo por trás da sua reabertura: o encerramento de centrais nucleares continua a ser um grande problema, já que não se desliga simplesmente o botão e além do desmantelamento, os resíduos nucleares manter-se-ão durante milhares de anos.

Estas notícias revelam que a tímida pressão do Estado Português para fechar Almaraz interessa tanto ao governo de Mariano Rajoy quanto nada, e que o mesmo tem um órgão – o Conselho de Segurança Nuclear – que se comporta como uma organização de proliferação de terror. O governo espanhol não pode ter o conforto de ter ao lado um país que não se bate pela defesa das suas populações e do seu território, e esfregar-lhe isso na cara com decisões deste tipo. O governo espanhol nomeia e dá albergue a uma organização como o Conselho de Segurança Nuclear, que não só provou ao longo dos últimos anos a sua total irresponsibilidade em matérias de segurança e conflitos de interesse, como agora nos promete estender essa cultura de risco e de perigo em grande escala até ao limite. Esse limite é claramente um acidente nuclear. Resta saber o que faremos nós todos em relação a isso.

Artigo publicado em sabado.pt

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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