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Sr. primeiro-ministro, por favor, faça um teste

É claro que a testagem sistemática deve ser a regra, onde e sempre que existam aglomerações de pessoas por um tempo suficientemente longo para se contaminarem. Mas as pessoas individualmente também são capazes e querem testar-se.

Sr. primeiro-ministro: não nos tome por inaptos. Nós somos capazes!

Veja o caso da Alemanha, onde, na semana passada, dois supermercados colocaram à venda testes rápidos. Num deles, esgotaram em 12 minutos, no outro o volume de encomendas estourou os sistemas online num instante. Na Suíça, são fornecidos à população cinco testes rápidos por mês. Na Inglaterra, dois por semana. Na Alemanha, um por semana!

E em Portugal?

Em Portugal, a saga da testagem daria enredo para um filme de longa metragem. Conflitos de interesses entre pessoas, conflitos de interesses corporativos, conflitos de interesses económicos, conflitos de interesses entre instituições, falsas dicotomias entre ciência e decisões operacionais, incompetências múltiplas na autorização, na decisão, na operacionalização, na comunicação, levam a que algo que é defendido no discurso, por todos, se complique e não saia a terreiro de forma simples e transparente.

Porque será que não aprendemos com os exemplos do passado?

2021 marca o centenário da descoberta da insulina. Há 100 anos, pessoas corajosas acreditaram que seriam os mais interessados, os mais capazes de se cuidarem. Ensinaram-nos a injetarem-se com insulina e ainda hoje, passado um século, assim continua. A segurança, a supervisão e o controlo foram estabelecidos numa relação nova com os profissionais de saúde: colaboração ativa, em vez de paternalismo. Pergunte, senhor Primeiro Ministro, se alguém está disposto a dispensar esta conquista?

Com os testes de gravidez, o que se passou? E com os testes da sida? São feitos pelas próprias pessoas na sua intimidade e à sua responsabilidade. Alguém quer voltar atrás?

Que vamos fazer com a telemonitorização, se não acreditarmos nas pessoas?

E estes processos não acabam por decreto, despacho, diretiva, ou por falta deles.

A alternativa torna-se ir comprar aos mercados paralelos? Aos amigos e conhecidos? Quem ficará de fora? Seguramente, os "suspeitos do costume", os mais vulneráveis que serão provavelmente os mais necessitados.

Muitas fábricas, algumas juntas de freguesia, algumas unidades de saúde já o fazem, com orçamentos limitados e a pagar IVA a 23%, semanalmente, quinzenalmente, quando há algum contacto ou suspeita do mesmo, seguindo a verdadeira norma da resistência e combate à epidemia: é preciso atuar com firmeza e em força!

É neste sentido que ficamos estupefactos com o que sai nos jornais: testes nos laboratórios privados (pois até integram o grupo de trabalho da DGS), testes só se os números forem assim ou assado (nos passados 15 dias: muito científico e robusto), só nas escolas (que passam do lugar onde não havia transmissão ao único local referido).

E as unidades de saúde e os estabelecimentos abertos ao público?

E PORQUE NÃO TODOS NÓS?

É claro que a testagem sistemática deve ser a regra, onde e sempre que existam aglomerações de pessoas por um tempo suficientemente longo para se contaminarem. Mas as pessoas individualmente também são capazes e querem testar-se. Afinal não somos tão diferentes dos suíços (com mais de 10% de portugueses), dos ingleses (com milhares de portugueses emigrados), ou dos alemães.

Faça o teste. Mostre que acredita nos portugueses. Dê-nos um teste por semana, faça com que todos os locais com mais de 5 pessoas passem a realizar testes quinzenais, com o apoio das autarquias. Garanto-lhe que as pessoas saberão telefonar para a Saúde 24, saberão isolar-se melhor (ainda mais se além do telefonema do seu centro de saúde tiverem outro, ou mesmo uma visita, da sua Junta de Freguesia, a perguntar se precisa de ajuda) e saberão finalmente ser agentes de saúde pública. Não porque querem o título, mas porque querem defender-se a si próprios, à sua família, aos seus colegas e vizinhos. Queremos desconfinar, mas com maior segurança: a da confiança partilhada, em todos, incluindo naqueles que nos governam. Queremos, tal como o sr. primeiro-ministro, estamos seguros, confinar o vírus e não as pessoas.


Artigo publicado no Expresso, 9 de março de 2021

Sobre o/a autor(a)

Médico, presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), dirigente do Bloco de Esquerda
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