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Ser Adulto

O desemprego e o emprego precário impedem a transição para a vida adulta porque privam os jovens de estabilidade, de investimento laboral e familiar e de adquirirem independência face aos seus pais.

Há cada vez mais jovens portugueses a emigrar para poderem ser lá fora aquilo que não conseguem ser cá dentro: adultos! A conclusão é de um estudo feito por João Teixeira Lopes que expõe a forma como o desemprego e a precariedade impede que os jovens portugueses façam a sua transição para o que consideram ser a vida adulta.

Em 2005, Frederick Lopez coordenou uma equipa de investigação onde tratou do conceito de 'adultos emergentes' sugerido por Arnett e onde se propôs a entrevistar jovens entre os 18 e os 25 anos de forma a explorar a conceção que estes tinham do que era ser-se adulto.

Associado à noção de adulto surgiu, em todas as entrevistas, a entrada no mercado de trabalho e a construção de uma carreira profissional. Logo a seguir, surge a constituição de manutenção de uma família.

Isto é, para os 'adultos emergentes' - etapa posterior à de 'jovem adulto' e que se prolonga por via do aumento de anos de escolaridade, mas também pela dificuldade crescente em se entrar de forma estável no mercado de trabalho – o trabalho está intimamente associado com a transição para a vida adulta. Sem ele, sem um vínculo estável, sem a noção de que se está a construir uma carreira significativa, a transição nunca será verdadeiramente sucedida, e o jovem pode manter-se nessa espécie de limbo, protelando de etapa em etapa (adolescência, jovem adulto, adulto emergente) a sua transição, repetindo em todas as etapas os mesmos procedimentos de exploração identitária, mas não conseguindo, por força dos impedimentos económicos e sociais, proceder à sua instalação na vida laboral e familiar: a vida adulta, em suma!

O desemprego e o emprego precário impedem a transição para a vida adulta porque privam os jovens de estabilidade, de investimento laboral e familiar e de adquirirem independência face aos seus pais.

Perante isto, torna-se mais ridícula a afirmação de Passos Coelho no programa O País Pergunta. Quando questionado sobre as medidas que o Governo tencionava aplicar para incentivar a natalidade, o primeiro-ministro respondeu que financeiras não aplicaria nenhuma, mas que o Governo tem já medidas para promover a natalidade e a família, nomeadamente a flexibilidade laboral.

Não, a flexibilidade e a crescente precariedade de vínculos laborais, ao não promover a entrada segura e estável no mercado de trabalho nem o desenvolvimento de uma carreira, não promove nem a família nem a natalidade; inclusivamente, impede que jovens de 25 anos e mais completem a sua transição para a vida adulta. Ou, caso pretendam essa transição, ver-se-ão forçados à emigração!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
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