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Saúde 24, os que ficaram e os que partiram

Despedidos mais de 200 enfermeiros, o que resta hoje na Saúde24?

Não mostra misericórdia o avanço bélico da precariedade sobre Portugal: ceifando direitos, amputando sonhos e perspetivas, colhendo vidas que entrega à incerteza.

A política do trabalho escravo substitui os direitos arduamente conquistados, fazendo refém uma população com o dever do sacrifício, despida de direitos que não seja a própria existência.

Uma das mais marcantes batalhas nesta impiedosa guerra travou-se na Saúde24: mais de 200 enfermeiros lutaram pelo direito a verem reconhecidos anos de relação contratual nunca assumida, e a verem protegido o serviço público ao invés do lucro desenfreado.

Despedidos mais de 200 enfermeiros, o que resta hoje na Saúde24?

Os muitos que se viram obrigados a partir levaram consigo anos valiosos de experiência , a mesma que sempre fez a diferença num sistema pensado para servir, mas usado para lucrar. A especialização num ambiente único em Portugal tornava impensável a substituição em larga escala de tamanho número de profissionais; abdicando da qualidade, a chacina laboral dos revoltosos teve lugar.

Travava-se um combate desigual entre aqueles que ousaram defender a sua remuneração, quando ameaçados de um corte criminoso que poderia chegar aos 50%, e entre uma empresa astuta, almofadada pelo poder político; o negócio era demasiado valioso e perante prometidos cortes orçamentais havia que preservar o lucro, pois o serviço público, esse serve apenas de fachada à negociata.

Mediáticas paralisações de serviço levaram à mobilização de diversas personalidades e à sensibilização do público, para a batalha em curso. Despedidos sem apelo nem agravo, impedidos ilegalmente de entrar no seu local de trabalho, coagidos e ameaçados pelos capatazes da administração, muitos foram os que sucumbiram ao poderia de uma organização perigosa.

O presente marca uma geração que viveu os últimos fogachos de direitos laborais, que contemplou os últimos vislumbres de trabalho justo; tornou-se esta geração refugiada desta guerra que lucra com o sacrifício, que joga levianamente com a vida e dignidade de cada um, que investe suor alheio na busca desenfreada pelo lucro.

Encontramos muitos destes enfermeiros emigrados, abrilhantando outros serviços de saúde, emprestando a sua inegável capacidade aos que não hesitaram em os acolher; outros encontramos em atividades alternativas, procurando subsistir longe da enfermagem que tanto amam. Outros ainda baixaram os braços, agrilhoados às suas obrigações, a famílias que não se alimentam sozinhas, a dívidas que se empilham incontrolavelmente e não se compadecem da menor compreensão.

O que resta então da Saúde 24?

O serviço lançou plataformas de intervenção inovadoras, como a Linha Sénior: congratulando-se com o serviço, sempre concebido com o melhor propósito, esconde que o mesmo se trata de contactos de números anónimos a cidadãos idosos, exigindo dados e sem explicações alongadas. Extrai os dados aos idosos desconfiados, intimidando-os com cenários fatalistas, esquecendo que serve o propósito de apoio e não da atemorização.

Na apresentação pomposa de resultados sempre ótimos, esquece-se de referir que tem agora enfermeiros pagos por número de chamadas atendidas; negligenciando a qualidade, com a diminuição das monitorizações, os enfermeiros são remunerados pelo número de chamadas geridas, fazendo do serviço ao cidadão a mercearia que se vende ao quilograma.

A experiência desvaneceu-se, substituída por sangue novo, acima de tudo, remunerado apenas em metade dos anteriores colegas, com os mesmos vínculos precários. Os critérios de integração na Saúde 24 foram esquecidos: as anteriores entrevistas extensivas, testes psicotécnicos, provas eliminatórias e experiência profissional relevante, foram substituídas por uma política de “venham todos que são aceites e logo se vê”.

Viu-se efetivamente… Tempos de espera aumentados, diminuição na percentagem de utentes com cuidados eficazes no domicílio, aumentando ida aos serviços de urgência hospitalar, descredibilização de um serviço de potencial imenso, que tantos passaram a achar não ter utilidade nenhuma.

Os beliscões fortes à legalidade ficaram impunes: Paulo Macedo perpetuou uma administração de compadrio, repleto de dirigentes da maioria parlamentar. Ficaram igualmente os capatazes, os que um dia se chamaram enfermeiros, mas hoje são somente gestores de cargo, capazes de função, os mesmos que ameaçavam diariamente colegas de profissão.

Perpetuou-se igualmente o Chief Nursing Officer, Sérgio Gomes, enfermeiro máximo responsável pela supervisão da linha na Direção Geral de Saúde, que mostrou empatia, pena que não tão grande como a sua passividade e conivência com as táticas ilegais da administração da Saude24. Outrora inerte, lavando as suas mãos, propõe-se hoje a ser Bastonário dos Enfermeiros que abandonou.

Mantêm-se os corpos dirigentes do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, que negou auxílio aos enfermeiros, alegando que para sindicato algum existem direitos de precários. Colaborando estreitamente com a administração da Saúde24, gabando-se mesmo da amizade pessoal entre dirigentes e administrador, foram uma força de bloqueio e nunca de ajuda.

Ficou o negócio, aquele que conduz utentes a terem chamadas mais longas ou do género mais rentável; ficou as iniciativas de alguns que o fizeram para parecer bem , em palavras que nunca concretizaram. Exemplo o Sr. Bastonário da Ordem dos Enfermeiros que defendeu e muito bem em comunicado os seus enfermeiros, mas logo os deixou à sua sorte.

Numa luta desigual, o pequeno David não se atemorizou perante o Golias: a razão assim o determina. Mas a razão compra-se em Portugal e depois da inédita comunicação pública do presidente da Autoridade das Condições de Trabalho atribuindo razão aos enfermeiros queixosos, assistiu-se a um abafamento de tais opiniões.

Julgados por juízes que à data desconheciam termos como “recibo verde” ou precariedade, lutando contra um batalhão de advogados e uma avalanche de mentiras ditas sem vergonha pelos enfermeiros gestores da Saude24, os casos somaram derrotas em tribunal. O sistema contorna a razão, vencendo a evidência da ilegalidade.

Expulsos da Assembleia da República, despedidos do seu local de trabalho, impedidos de executar o serviço público a que tanto se dedicaram estes são os que não ficam.

De mãos dadas esteve sempre a Associação de Combate à Precariedade, incansáveis, eles que entendem o flagelo da precariedade que faz sangrar incontrolavelmente todo um pais.

Iniciativas do Bloco de Esquerda e do PCP permitiram levar à Assembleia da República esta problemática, sempre trucidadas pela maioria parlamentar, sob o olhar indiferente do Partido Socialista.

Da Ordem dos Enfermeiros chegou apenas o convite imediato da direção da Secção Regional do Sul, na pessoa do Enf. Alexandre Tomás, para receber os enfermeiros e questionar a direção sobre o ataque à qualidade dos cuidados e à dignidade da enfermagem.

De resto ouviu-se silêncio institucional, o mesmo silêncio com que outros colegas se prontificaram a substituir os despedidos, por metade da sua remuneração.

A luta era de todos, sempre o foi: os rostos podiam ser o de qualquer um, mas foram aqueles, sem medo, que pagaram com a segurança das suas vidas, com a sua emigração, com o acréscimo de dificuldade em pagar as suas contas.

Uma batalha em que a razão não foi arma suficiente para vencer o interesse, em que a saúde vacilou perante o lucro fácil, em que a dignidade de quem trabalha e de quem ama a sua profissão foi moeda de troca.

Tornaram-se foragidos os que outrora acharam que não queriam a precariedade: culpados por tempos de espera indecentes, culpa sim de gestão danosa, culpados por todas as calamidades imaginárias, verificou-se no ano seguinte a importância destes enfermeiros. O caos nas urgências não encontrou amparo onde antes encontrava algum, preservando o lucro sim, mas esquecendo o suspeito do costume: o cidadão.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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