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Saber vender o peixe, saber vender a droga

Arrancaram na ilha de São Miguel, Açores, as filmagens para uma série de uma conhecida plataforma de streaming, líder do mercado. Será que alguém na equipa pensou que o pior tipo de abordagem que se pode ter numa situação destas é aprofundar e propagar o estigma?

Há coisas que vendem sempre bem. A droga, por exemplo. Ou um bom escândalo. No limite, aquilo que vende sempre bem é uma boa história. Mas há histórias e histórias e muitas formas de as vender. Como em todos os casos complexos, simplifica muito começar por perceber quem ganha e quem perde com eles. E como em quase todas as histórias, sobretudo nas más, quem ganha e quem perde são, afinal, os mesmos de sempre. Mas vamos por partes.

Arrancaram na ilha de São Miguel, Açores, as filmagens para uma série de uma conhecida plataforma de streaming, líder do mercado - ou seja, aquela que mais vende. Perante os açorianos e as respetivas entidades que apoiam a produção, a história tem sido descrita pela equipa como uma pretensão de valorizar o espírito e a resiliência - esta palavra também vende bem - do povo açoriano e, muito em particular, do povo do local que dá nome à série. Em fevereiro deste ano, à RTP Açores, o realizador, açoriano e publicitário de sucesso, disse pretender representar “o lado orgulhoso das pessoas, fortes e resilientes, que é o contrário dos coitadinhos”. À data destas declarações, o tema principal da série ainda não era público. Porquê o segredo?

Para quem, no entanto, teve acesso à declaração das intenções do projeto, fica patente que o objetivo é bastante diferente. Neste texto ficamos a saber que o tema central da série é o famoso caso sucedido em 2001, em que uma grande quantidade de cocaína se extraviou de um iate de contrabando em apuros, tendo ido dar à costa norte da ilha e sido achada pelos locais. É sabido que este acontecimento fez disparar os diversos gatilhos da imaginação e do preconceito popular, fazendo com que um verdadeiro folclore de fantasias florescesse em seu redor. E na nota de intenções estão, uma por uma, todas as fábulas associadas ao caso e ainda mais algumas. Fica então muito clara a vontade de colar nesta série contornos sórdidos, grotescos e degradantes, associando este episódio micaelense a uma vila específica, já que é o seu nome que dá título à série.

Porque o que importa é saber vender o peixe, aos açorianos foi contada a história de “valorização da população” e ao júri que escolheu este projeto, pelos vistos, a ideia foi vendida de forma completamente diferente. Situações de pobreza, crime, escândalo, toxicodependência e contrabando, tudo aquilo que a comunidade local e regional se tem esforçado para combater como ideias imediatamente associadas a um local e a uma população, são aqui abertamente utilizadas como isco para financiamento e audiências. Esta localidade não é a única da ilha nem do país a sofrer com estas questões. Porquê a fixação com um nome, com um local, com uma população?

De entre as várias anedotas inventadas em redor do sucedido, a mais conhecida e tentadora, provavelmente por ser a mais perfeita metáfora de tudo aquilo que se acredita que aquela localidade encerra, é a de mulheres a panar o peixe no pó da cocaína antes de o fritar. Tão perfeita era a analogia, que chegou aos ouvidos de jornalistas e às páginas de periódicos internacionais que se crêem críveis, como o “El País” ou o “The Guardian”. Esta imagem, só por si, é a cristalização exímia de uma série de preconceitos sobre o local: as mulheres que são domésticas, a fritar em gordura o peixe trazido pelos homens, a abastança caótica de ter cocaína mais barata que a farinha, a ignorância de não saber o que estavam a fazer ou o vício que leva a pôr droga até na comida, qualquer que seja a explicação para este quadro, é uma explicação que estimula, é uma história que vende. Factualmente, é uma mentira, mas é tão verdadeira na sua correspondência com o que se acha que aquelas pessoas são, que é comprada facilmente e com duas gargalhadas.

As palavras, as imagens, também mordem. Será que alguém na equipa se perguntou como gostariam os locais de ser representados? Será que alguém teve em mente o quão complicado é para aquela comunidade ver-se livre de uma série de problemas sociais? Será que alguém na equipa pensou que o pior tipo de abordagem que se pode ter numa situação destas é aprofundar e propagar o estigma? Ou será que, mesmo tendo pensado nisso tudo, decidiram avançar, decidiram-se pelo que vendia mais, pelo imediatismo e pelo exótico? Ao ouvir este podcast, com o autor e coordenador de guião, fica tudo mais claro.

Pesa ainda mais quando o projeto foi vencedor de um concurso privado lançado pela dita gigantesca plataforma multinacional, em que instrumentalizou sem os pagar, os recursos humanos, administrativos e a experiência do Instituto do Cinema e Audiovisual, já de si parco em recursos e em disponibilidade de gestão. Trata-se, mais uma vez, de vender aos portugueses uma coisa - uma empresa muito respeitadora e promotora da indústria e do talento nacionais - e fazer o seu oposto: um concurso em que predou recursos do estado e gastou uns míseros 155.000 euros em prémios na obtenção de projetos para 10 grandes produções suas. Deve ser o deslumbre pelo poder de uma grande marca que faz com que se compre tudo isto de cara alegre.

Sobre o/a autor(a)

Licenciada em Cinema, mestre em Comunicação e Media, bolseira de doutoramento em Sociologia no ICS da Universidade de Lisboa. Nasceu em Lisboa e vive na Horta, Açores, desde 2008. Co-diretora do Festival Maravilha na Horta
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