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Saúde, telemóveis e socialismo

A PricewaterhouseCoopers é uma das quatro gigantes mundiais da área de “consultadoria” – essa alquimia mágica da legitimação. Está presente em mais de 150 países e tem como imagem de marca a “independência e a transparência”. Em Portugal é um nome que se começou a ouvir com mais frequência depois da chegada da troika.

Isso não acontece por acaso. Para além de ter contribuído com a tecnocracia necessária na aplicação do plano da troika – com quadros seus a transitar para a ESAME (Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos) – foi-lhe entregue, por exemplo, a inspeção da área de crédito da CGD, BANIF, BCP e Montepio.

Parece, no entanto, que a Pricewater tem especial apetência pela área da saúde. Para além de ter realizado estudos para os novos modelos de governação dos hospitais (empresarialização dos hospitais) e ter sido o responsável pela avaliação de evolução de desempenho do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Santa Maria), o grupo está presente nos órgãos sociais de uma das maiores redes de hospitais privados de Portugal, o Grupo Trofa Saúde (hospitais privados de Braga, V.N Famalicão, Trofa, Boa-Nova, Alfena, entre outros), o mesmo que recentemente lançou uma campanha de idas às urgências a preços de saldo.

A atenção concedida à Saúde é tanta que logo em Agosto de 2011 a Pricewater lançou um resumo das medidas da troika e do programa de Governo previstas para a Saúde, resumindo: o corte de 925 milhões de euros no orçamento do sector em 2 anos e o propalado caminho para a “Liberdade de escolha do cidadão” ou o que a empresa chama, em outro documento, de “A soberania do consumidor” – “É necessário que exista um mercado concorrencial, com múltiplos intervenientes, tanto do lado da procura como da oferta, que concorram entre si em condições semelhantes, para que o consumidor possa exercer o seu poder de escolha”. O doente do SNS transmuta-se assim no “consumidor” que joga no mercado concorrencial da cura. A presentação só poderia terminar com um chamamento: “É o momento de agir!”. Há que aproveitar a maré.

Mas não só com a despesa está preocupada a Pricewater. Quem visitar a sua página de Internet encontrará um sugestivo artigo intitulado “Como aumentar a receita no ramo da saúde”. O artigo parte de uma preocupação e um problema. A preocupação é que “O mercado de seguros de saúde deverá estar próximo da saturação, com cerca de 25% da população portuguesa a subscrever uma apólice deste ramo.”. Já o problema está no humor das seguradoras pois: “a legislação em vigor não incentiva apólices plurianuais e a promoção de ganhos de saúde dos segurados. Nenhuma companhia quer investir num cliente que no próximo ano irá para a concorrência…”

Qual a solução deste imbróglio? Simples. É preciso “estimar o valor de um cliente ao longo do ciclo de vida com base na estatística e prever o seu comportamento”, a partir daí é fácil: fidelizar o bom cliente com base em serviços de saúde, por outras palavras, ofertas grátis. Será um tratamento às varizes? Uma lipoaspiração? Um exame aos pólipos? A Pricewater não esclarece pois o que importa é a mecânica da coisa: “É a mesma situação que nos telemóveis pré-pagos: substitui-se o vínculo contratual com a regularidade do seu comportamento. Oferecem-se assim equipamentos para promover a fidelização. Porque não oferecer uma prestação de saúde?”. Porque não? Se a Vodafone oferece o último modelo da Nokia ou chamadas grátis ao fim-de-semana porque não pode a Médis oferecer uma colonoscopia preventiva ou uma carteira de 5 idas às urgências? O consumidor só pode agradecer.

Que estas linhas possam ser escritas com o despudor de quem trata a existência de cada um como um plano de fidelização de telemóveis é um sinal dos tempos. Um sinal do atrevimento de uma burguesia que faz soar o silvo das facas que se afiam. Hoje é o Serviço Nacional de Saúde nos protege desta gente, é a fronteira entre o respeito pela saúde e a selvajaria do mercado da doença. Quando fica cada dia mais evidente que o desmantelamento do SNS é o objetivo deste governo da troika só uma política socialista que rompa com os seus ditames, que recuse o fecho da MAC, que extingue as taxas moderadoras e rejeite a presença dos privados pode defender o que de mais importante temos: a vida.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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