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Rangel em pé de guerra

Terceira guerra mundial, fim do euro, desagregação de Espanha e Reino Unido, atentados em Fátima. Os temas do eurodeputado laranja merecem debate.

O eurodeputado Paulo Rangel escreveu um artigo interessante no seu espaço semanal no Público. Contra o "tudo vai bem" que o PSD quer levar às eleições, Rangel reconhece que a crise europeia pode ter "desenvolvimentos surpreendentes e porventura dramáticos" que estão "no horizonte das possibilidades verificáveis". Curioso é também que Rangel, apesar de "convicto defensor da solução federal para a UE", coloque a pergunta certa: que faria Portugal? Da "solução federal" já nem os seus convictos defensores se dão ao incómodo de falar.

A mais arrojada das questões de Rangel é esta: "Não pode excluir-se que uma guerra europeia ou até uma terceira guerra mundial não tenha já começado" na Ucrânia. Se envolver a NATO, “que fará Portugal”?

Rangel não reparou, mas a guerra da Ucrânia não só já envolve a NATO, como é um produto da NATO e da UE, que têm expandido a sua influência em várias regiões fronteiriças com a Rússia, favorecendo a escalada nacionalista do lado de Putin. Sendo duvidosa a invocação de uma "terceira guerra mundial" - isto é: a destruição massiva realizada pelo confronto total entre potências em solo europeu -, é certo que a Ucrânia é prova da natureza ofensiva da aliança atlântica. E por isso é o melhor argumento para que Portugal recuse qualquer lugar na NATO.

A visão de um mundo bipolar, bem expressa quanto à Ucrânia, repete-se nas hipóteses enunciadas por Rangel quanto à evolução do Reino Unido. A "desagregação" sob pressão do nacionalismo escocês e a saída da União Europeia depois do referendo agendado por Cameron enfraqueceriam o "eixo atlântico da UE". Ora, para Portugal, desse eixo só têm vindo maus ventos e piores casamentos, das agendas privatizadoras de Thatcher e Blair à cimeira dos Açores, há 12 anos. E é bem possível que sejam essas mesmas experiências que inspirem, também na Escócia, a saudável vontade de um caminho independente.

Essa mesma combinação da questão social e da questão nacional pode iniciar aquilo a que Rangel chama "a desagregação acelerada de Espanha", a partir dos resultados das eleições catalãs, em Setembro, e da progressão do Podemos. O espanholismo da direita portuguesa é histórico, percorreu o Estado Novo e é tão profundo como o seu amor ao "eixo atlântico", tão compatível com o colonialismo tardio de Salazar. Fiel à tradição, Rangel toma as dores de Rajoy em nome da Espanha una e indivisível. Mas quem tem medo da auto-determinação? Pela sua parte, o Podemos assume a proposta federal como ela é: um convite. A sua aceitação é voluntária, depende da escolha dos povos que habitam esse território conhecido como Espanha.

Rangel esforça-se ainda por encaixar a situação grega no seu xadrez geopolítico com cores dos anos 60. O Syriza, "financiado por Putin" (tal como a Frente Nacional francesa), não consegue ou não quer ficar do lado de cá da cortina, na moeda única. O problema é que "uma saída grega atrairá sempre atenções sobre Portugal". Que faremos?

A perspetiva neoconservadora de Paulo Rangel não chega para explicar todos os sinais de desagregação da União Europeia. Na verdade, a Grécia está a ser expulsa da moeda única pela ação articulada dos governos europeus, conservadores e socialistas, sob a direção de Berlim. O problema da Grécia não é qualquer simpatia putinista. Tal como nós (daí as “atenções sobre Portugal”), o povo grego está a pagar a gestão da crise pela finança europeia, uma gigantesca transferência de riqueza da periferia para o centro, em forma de juros da dívida.

É difícil prever o efeito de uma saída grega no conjunto do sistema monetário europeu, até porque lhe falta enquadramento legal e institucional. Que faria Portugal? Rangel nada diz. Para enfrentar uma eventual desagregação da moeda única, só se apresentou a debate o estudo de Francisco Louçã e João Ferreira do Amaral sobre a saída do euro, nos cenários ordenado ou litigioso, e os seus dispositivos de proteção da população mais vulnerável.

Em qualquer caso, vista da periferia europeia, uma eventual saída da Grécia (tal como a sua permanência sob novos memorandos) daria uma indicação definitiva: a impossibilidade de, no quadro da União e dos seus tratados, romper com a austeridade e ter políticas de recuperação e emprego.

Enfim, o texto já vai longo. O risco de atentados jihadistas ("em Fátima, por exemplo") fica para outra ocasião.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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