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Que percentagem vale o seu filho?

Um sistema de ensino que tudo quer medir e quantificar prejudica bons e maus alunos, integrados e excluídos.

No início de janeiro deste ano, num encontro promovido pelo Conselho Nacional de Educação, Paulo Santiago, um especialista da OCDE, defendeu que, entre os alunos mais novos, o ensino devia estar mais focado na avaliação formativa. Agora, foi a vez de David Justino — ex-ministro da educação e defensor dos exames do básico — ter vindo a público afirmar que a avaliação com base nas notas dos exames tem "um efeito de influência" na avaliação dos alunos ao longo do ano, que "é necessário evitar".

As reprovações começam logo no 2.º ano, com uma taxa de retenção perto dos dez por cento. Isto é brutal. Como é que chegámos ao ponto de ter um sistema de ensino que afasta crianças de sete anos dos seus pares? Como podemos falar sequer em cultura de aprendizagem quando, numa idade em que o desenvolvimento não é nem sequencial nem homogéneo, se desiste de uma criança a meio de um ciclo, porque não está, supostamente, preparada para absorver um determinado pacote de conteúdos?

Afinal, o que é aprender? A escola é um mecanismo essencial de socialização, ou uma máquina reprodutora de exclusão? Podem parecer perguntas de quem não tem mais nada para fazer, porque o que importa é quantificar a probabilidade de “sucesso” de uma criança num futuro que se quer inóspito para a esmagadora maioria das pessoas normais, mas é uma pergunta que está a ser respondida todos os dias nas nossas escolas. O saber a régua e esquadro cria quadros de exclusão logo de pequeninos: eu sou não satisfaz e tu és muito bom. Eu tenho futuro, tu ficas já aqui. E é assim que rotulamos dez por cento das nossas crianças de sete anos, cujas vidas académicas se resumirão ao mínimo de notas e percentagens negativas necessárias para que seja socialmente aceitável o diagnóstico de “não dão para a escola”, condição de exclusão suprema. Não deveria ser a escola a “dar para” todas as crianças, sobretudo as que lá chegam com uma bagagem de exclusão acumulada ao longo de toda a história familiar?

Quando se promovem disciplinas de primeira e de segunda, e se aposta só no português e na matemática, em detrimento de todos os outros saberes ligados ao corpo, à criatividade, à arte, à música e à imaginação; quando a paixão de aprender e pensar é substituída pela mecanização dos exames e a sua cultura de hierarquias e ansiedades

Um sistema de ensino que tudo quer medir e quantificar prejudica bons e maus alunos, integrados e excluídos. Quando se promovem disciplinas de primeira e de segunda, e se aposta só no português e na matemática, em detrimento de todos os outros saberes ligados ao corpo, à criatividade, à arte, à música e à imaginação; quando a paixão de aprender e pensar é substituída pela mecanização dos exames e a sua cultura de hierarquias e ansiedades; quando tentamos reproduzir na escola o pior que temos para dar (e, mesmo assim, quantos de nós somos constantemente medidos por números no nosso dia-a-dia? “Olá, sou a Manuela, médica, valho 80 por cento, e o senhor? Ah, eu sou só um arquiteto de 55 por cento, como está?”), na ilusão distópica de que estamos a preparar as nossas crianças para alguma coisa, estamos apenas a condená-las a construir um mundo cada vez mais hostil, onde o sucesso se traduz por saber molengão, debitado por crianças cada vez mais sensaboronas, que se transformarão em mão-de-obra dócil e dependente da exclusão alheia para ter qualquer noção de auto-realização.

Enquanto que, em França, se debate a abolição das notas nas escola, substituindo-as por uma análise mais geral das competências dos alunos, por cá, longe disso, encara-se a escola e o saber como um castigo, estimulando o lado mais negro deste sistema de testes, notas e exames finais de ciclo: “não estudou para o teste, teve má nota, chumbou o ano, não avança, ponto final.” Sendo que há escolas que sistematicamente beneficiam ou prejudicam alunos nas avaliações finais. Veja-se o caso, nada inocente, destas 24, 14 das quais privadas — são os futuros alunos das melhores faculdades, exemplos sorridentes de uma suposta meritocracia que, paradoxalmente, fez questão de deixar pelo caminho quem teve de esforçar-se o triplo para conseguir chegar ao patamar de partida destas crianças oriundas de meios onde estudar é a norma há várias gerações, e não a exceção.

Para que serve a escola afinal? Depois de décadas a reduzir exclusões e a integrar, o sistema escolar em Portugal voltou a ser uma máquina de perpetuação de desigualdades, onde se estigmatizam crianças de 7 anos. Quem tem dinheiro e vive nas zonas mais favorecidas até pode não saber o que é isso; mas não se livra da vergonha de estar a construir uma sociedade tão triste e explosiva.

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