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Quando as paredes ruíram no Bangladesh

A revolta que hoje ocupa a alma de todos os trabalhadores do Bangladesh, correu o mundo e relembrou-nos como o capitalismo, no seu estado mais puro, encontra na barbárie o seu conforto.

Na passada semana colapsou o complexo Rana Plaza no Bangladesh, que alojava várias fábricas fornecedoras de roupa para empresas ocidentais. A contabilização das vítimas mortais ultrapassa as 500 pessoas, os desaparecidos são mais de 140 e os feridos cerca de 2500.

Este relato é por si só sinistro e triste. Infelizmente os contornos e as raízes da história não se ficam por aqui, são imensamente mais dolorosos e profundos.

O Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, é o segundo exportador mundial do setor têxtil, logo a seguir ao gigante chinês. A indústria representa quase 80% das exportações do país e 17% do produto interno bruto. Ao todo este setor emprega três milhões de pessoas, mulheres na sua grande maioria.

O Bangladesh recusou-se a ratificar as principais convenções da Organização Internacional do Trabalho, conta com apenas 93 inspetores de trabalho para quase 25.000 fábricas em todo o país. O custo do fator trabalho é o mais baixo do mundo, de tal forma que até uma parte da indústria têxtil chinesa começou a deslocar as fábricas para o país.

Os direitos sociais e laborais são uma ausência gritante, o que levou o representante máximo da Igreja Católica, Papa Francisco, a equiparar o estatuto dos trabalhadores bangladeshianos ao de “escravos”. E tem razão. Em média cada trabalhador/trabalhadora aufere 40 dólares por mês - desde 2010 aquando da duplicação salarial - “um valor pago a escravos”. A violência do cenário humano não merece outra denominação.

Esta profunda violação dos direitos humanos, que só pode merecer a nossa total e veemente condenação, é, infelizmente, o garante de lucros gigantescos para vários grupos económicos, que conhecemos bem, é o caso da irlandesa “Primark”, da italiana Benetton, das espanholas “El Corte Inglés” e “Mango”, da canadiana “Joe Fresh” e da francesa “Bon Marché”.

Nenhuma indemnização, que estas multinacionais se predispuseram prontamente a pagar às famílias das vítimas, poderá alguma vez reparar o irreparável. Os efeitos de um acidente menoriza-se, um massacre não. A afirmação pode aparentar exagero, mas a história dos que dá voz aos de baixo não nos permite outra condenação.

Recordemos alguns factos. Desde 2005 morreram mais de 700 trabalhadores no Bangladesh, em resultado de fogos ou de colapsos devido à ausência de condições de segurança e debilidade dos equipamentos e edifícios. Em Novembro, um incêndio na fábrica Tazreen, que por não ter saídas de emergência, nem meios de combate ao fogo, sentenciou à morte violenta 114 trabalhadores.

Desta vez, horas antes de o desastre ocorrer, os proprietários das fábricas alojadas no complexo Rana Plaza ignoraram o aviso para evacuarem estes estabelecimentos e para pararem a produção, após terem sido detetados graves problemas estruturais no edifício, testemunhou à Reuters o chefe da polícia local.

Logo após à derrocada, o ministro dos assuntos internos, em declarações à BBC, chegou a sugerir, com um descaramento que se reconhece a poucos, que a queda do edifício de oito andares, se devia à ação provocatória dos grevistas que teriam danificado a estrutura da fábrica.

Entretanto, o 1º de Maio do país ficou marcado pelas maiores manifestações operárias que o país alguma vez conhecera, exigiu-se justiça, trabalho com direitos, dignidade e respeito por quem trabalha.

Não podia ser de outra forma, a revolta que hoje ocupa a alma de todos os trabalhadores do Bangladesh, correu o mundo e relembrou-nos como o capitalismo, no seu estado mais puro, encontra na barbárie o seu conforto.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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