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Pôr o fascismo fora de jogo

Tal como um vírus cresce nos organismos mais suscetíveis e debilitados, o populismo aproveita as crises e vulnerabilidades que o capitalismo alimenta.

As desigualdades sociais são já receita sabida para o produto final do ciclo degenerativo político platónico. O Brasil, terra da desigualdade e fosso entre pobres e ricos, é também um país que tem uma democracia recente e é marcado pelo legado colonialista europeu.

Se os países europeus e os Estados Unidos têm democracias maduras e têm estruturalmente algum amortecimento ao choque extremista e populista (até ver), a sociedade brasileira apresenta-se como um palco apetecível para o crescimento e reprodução destes movimentos. Este “vírus” tem na desigualdade social o seu alimento para a mutação fascizante do populismo.

Recentemente, o ex astro do futebol Ronaldinho, sobejamente conhecido pelas suas origens humildes, pelo seu sorriso, pela sua alegria e franqueza a jogar futebol, e acima de tudo pelo seu talento ímpar, posicionou-se ao lado do candidato fascista, Jair Bolsonaro. Nada faria antever este apoio de quem nada teve na vida e foi vítima de um sistema injusto e desigual, que mais tarde já mesmo sendo rico foi frequentemente vítima de comentários racistas. Apoiar Bolsonaro é reproduzir toda esta lógica que gera o crime e a corrupção que Bolsonaro tanto promete eliminar.

Será que Ronaldinho percebeu que para acabar com a miséria e o crime, a receita de Bolsonaro passa por “acabar” com os Ronaldinhos e Ronaldinhas do Brasil? Ou será que a indústria que gera mega estrelas de futebol desde os anos 90 no Brasil quebrou a consciência de classe que podia existir? Ronaldinho já não se sente Ronaldinho? Tipicamente os jogadores brasileiros que vinham da pobreza eram de esquerda e envolviam-se politicamente, inclusive na luta contra a ditadura militar. Percebiam a raiz da injustiça. Afonsinho do Botafogo no final dos anos 60 foi um dos que organizou a luta contra o regime militar.

Este apoio de Ronaldinho a Bolsonaro teve como onda de choque um posicionamento político do clube de futebol Barcelona. O Barcelona fez saber publicamente que não apoiava políticos que advogassem pensamentos fascistas, homofóbicos, racistas, machistas… desumanos. O Barcelona é um clube desportivo, não um partido, é certo, mas a política só se faz nos e com partidos? Não, a política está em tudo o que vivemos enquanto sociedade.

A questão do Barcelona poder/dever afastar Ronaldinho por um posicionamento político leva à velha questão do paradoxo da tolerância de Karl Popper. Deve ser tolerado o discurso fascista? O Barcelona teve a coragem de dizer que não e mais do que fora de jogo, pôr o discurso fascista fora de campo.

Em Itália e no leste europeu é frequente que os clubes de futebol assumam as suas posições políticas, tanto para a extrema-direita como para a esquerda radical. O caso do Barcelona com Ronaldinho não se prende com um posicionamento partidário. O que o Barcelona está a dizer não é necessariamente se é de esquerda ou de direita. É simplesmente dizer que não apoia nem tolera ideários fascistas e marcar posição mostrando que não gosta de estar associado ao tipo de ideias que Bolsonaro transmite. A pergunta que se coloca é, alguém gosta?

Com isto, não há o perigo de se abrir o precedente para quem tem opiniões diferentes da maioria porque o limite é claro e nítido. O limite é a liberdade e a democracia, o respeito pelas minorias étnicas e sociais, o respeito pelo ser humano. Jair Bolsonaro e o seu ideário são uma afronta ao respeito pelo ser humano, escudado de que será ele o mito salvador do injustiçado e vilipendiado pela grande corrupção.

Está provado que o Fascismo não resolve a desigualdade e a injustiça. Agrava, faz crescer. Ronaldinho e os milhões de brasileiros que apoiam Bolsonaro certamente não serão todos fascistas e os piores seres humanos à face da terra. O seu grito de descontentamento é legítimo e deve ser ouvido. Para isso, Bolsonaro não é a resposta. A resposta passa por uma consciencialização de classe onde se percebe que o problema não é o PT ou Lula da Silva. É o sistema capitalista oligárquico racista e machista que perpétua as roldanas da desigualdade, miséria e injustiça.

Agora, é tudo contra Bolsonaro. Depois, tem de ser tudo contra o sistema exploratório e desigual.

Sobre o/a autor(a)

Autarca em Lisboa. Licenciado em Relações Internacionais
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