Política para um Governo só

porMiguel Guedes

27 de março 2022 - 21:54
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Será inverosímil que aquele António Costa que rompeu com os seus aliados à Esquerda, promovendo a crise política que lhe entregou a maioria nos braços, seja agora o mesmo que pretende criar pontes e espaços de síntese com a oposição.

O que quer António Costa da política? Um Governo político para governar... sozinho. Neste aparente contra-senso, António Costa gere os seus equilíbrios internos às claras, fazendo a montra socialista para o país e anunciando o que se sabe: a sucessão, inevitável, pode acontecer quando menos se espera. Todos os sucessores estão a seu lado.

Saberemos, entretanto, quando o destino importar, se o tempo indicará Belém ou a Europa na viagem. Está assim quebrado o "modus operandi" da constituição dos seus anteriores governos onde, independentemente das boas ou más opções (e algumas só se revelaram com o muito tempo que lhes foi dado), o quinhão político foi, tantas vezes, sacrificado face à necessidade de comprovar competências técnicas.

A realização ou falhanço de um ministro advém de escolhas e decisões políticas. Tecnicidade existe em qualquer decisão e é por isso que é inevitável ter quem a domine por perto e a fundo. Mas ministros tecnicistas e sem capacidade política são, muitas vezes, meros executores das linhas de outros. A evidência. A ideia de que uma capacidade técnica infalível ou acima da média é requisito para que alguém possa assumir uma pasta ministerial é uma dor politicamente assistida.

Verter nomes e deitar água na fervura do presidente da República terá sido o primeiro diploma informal do XXIII Governo Constitucional. Em rigor, ninguém assume o mau agoiro, mas para uma legislatura que só pode ser agitada por um nome, Marcelo, este foi um aperitivo incógnito. Um cardápio servido com a merecida recondução de Marta Temido, a substituição adivinhável de alguns ministros, a paridade como espelho, a deslocação táctica de Augusto Santos Silva para a Presidência da Assembleia da República (para quê fazer mais política num Governo tão político quando há uma Assembleia para despolitizar com o seu capital político?), a redução de ministérios e de secretarias de Estado (num corte de cerca de 20%, reduzindo cargos e serviços intermédios) e, acima de tudo, fundado numa ideia de unidade socialista e de paz pública que o país caucionou positivamente nas últimas eleições que atribuíram uma improvável maioria absoluta ao PS.

Será inverosímil que aquele António Costa que rompeu com os seus aliados à Esquerda, promovendo a crise política que lhe entregou a maioria nos braços, seja agora o mesmo que pretende criar pontes e espaços de síntese com a oposição. O seu Governo mais político de sempre fará mera política de gestão interna. À oposição, caberá uma eventual gestão de danos e o rigor que se espera escrupuloso no acompanhamento dos inevitáveis destinos autocráticos de qualquer maioria absoluta. Ao presidente da República, estima-se que não se acomode a saber pelos outros, sabendo-os ouvir.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 25 de março de 2022

Miguel Guedes
Sobre o/a autor(a)

Miguel Guedes

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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