Está aqui

Poderia ter sido diferente

Esta semana a palavra bullying saltou para as primeiras páginas dos jornais e repetiu-se na abertura dos noticiários televisivos. Na origem desta proliferação mediática, esteve o caso de Leandro, o menino de 12 anos, de Mirandela, que no dia 3 de Março, alegadamente se terá suicidado no rio Tua, em consequência de agressões físicas e verbais continuadas, por parte de colegas mais velhos da escola EB 2/3 Luciano Cordeiro.

Dias depois foi conhecido o caso de Luís, professor de música da EB2,3 de Fitares, em Sintra, que se terá suicidado, por não aguentar a pressão psicológica exercidas pelos alunos que o atormentavam, humilhando-o e chegando a agredi-lo. Os dois casos estão a ser investigados pelas autoridades. Existem ainda muitas dúvidas sobre os seus contornos mas foram o suficiente para abrir a caixa de Pandora em torno da questão da violência infantil. Desde então muitos outros casos de alegadas agressões na escola de Mirandela e noutras foram noticiados.

O alarmismo social não é, neste, como noutros assuntos, o caminho a seguir. Mas o desabafo do director da EB 2/3 de Mirandela sobre o ocorrido - "São coisas de criança", também não pode ser recebido com indiferença. Há, pelo contrário, uma culpa colectiva que todos - os pais e educadores, os organismos de protecção de crianças e jovens e a escola - têm de assumir perante estes comportamentos irregulares.

Sabemos que as crianças e jovens reproduzem muitas vezes, nos seus jogos, e por vezes até de modo cruel, o que percepcionam da actuação dos adultos. Vejam-se os casos de rituais e praxes praticadas por jovens sobre outros jovens, a violência física e psicológica que traduzem, e percebe-se como a violência infantil e juvenil é por vezes "naturalizada", e até aceite socialmente.

Mas o combate à repressão não pode ser feito pela repressão. Nem punindo os mais pobres para que estes tenham ainda menos condições para educar os filhos, solução de que quem acha certamente que é a fome que dá educação.

Os estudos que existem concluem que as medidas punitivas raramente alteram comportamentos e que a aposta deverá ser para as acções preventivas da violência nas escolas. A lei actual não obriga a que as escolas tenham psicólogos contratados para atendimento aos alunos. Mas em 2008 o Ministério da Educação prometeu que no ano lectivo seguinte as escolas poderiam criar gabinetes de apoio, com equipas multidisciplinares (da área social, psicologia, assistência social e saúde) para prestar apoio a alunos, professores, famílias e funcionários das escolas em caso de bullying e de violência. Os professores, tal como os pais, em muitos casos, não sabem como agir, não têm formação específica, e por isso têm se ser apoiados na prevenção e actuação perante situações de violência.

Pouco se sabe sobre a execução dessa medida. O professor de Sintra queixou-se, pelo menos sete vezes à direcção da escola. A mãe de Leandro dirigiu-se duas vezes à escola para avisar da violência sobre a criança. A impotência da escola fez com que os casos não chegassem sequer à Comissão de Protecção de Menores. Poderia, talvez, ter sido diferente.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista
(...)