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Podem as pessoas ser um museu?

Pode a memória ser democratizada ou é um privilégio de quem, a uma determinada altura, detém os meios de produção narrativos? O artigo aborda o Museu da Pessoa e o seu núcleo no Porto, através da primeira exposição virtual centrada nas histórias dos mineiros do Pejão.

Pode a memória ser democratizada ou é um privilégio de quem, a uma determinada altura, detém os meios de produção narrativos? A questão é da maior importância, pois a resposta indicará se alguém fala ou é falado. Os vencedores querem sempre legitimar o sangue da vitória controlando a narrativa. E mesmo do outro lado da barricada, os “porta-vozes” apressam-se a substituir as pessoas pelos seus próprios interesses e perspetivas.

Durante tanto tempo as mulheres entraram para a História pelas notas de rodapé ou nos textos moralistas de “homens sábios”. Até à organização do movimento operário, as classes populares eram percebidas pelo viés dos dominantes, menorizadas e vilipendiadas, por vezes de forma grosseira, servindo a visão do mundo que os poderosos gostariam de criar (os pobres eram geralmente feios, porcos e perigosos e, acima de tudo, mereciam ser pobres!). Os homossexuais continuaram a ser descritos como doentes mentais até finais do século passado. Os povos colonizados eram “barbarizados” pelas palavras supostamente edificantes dos colonizadores. Inventavam-se caraterísticas, homogeneizavam-se traços, simplificava-se o complexo, deturpava-se a realidade – a imagem que se consegue criar da realidade (por palavras, imagens ou sons) naturaliza-se como a realidade,ignorando as relações sociais de desigual acesso à voz, à expressão e à memória.

O Instituto de Sociologia da Universidade do Porto decidiu integrar o Museu da Pessoa, que existe no Brasil há 30 anos como “um museu virtual e colaborativo de histórias de vida aberto à participação de toda pessoa”. A nossa intenção é integrar um amplo movimento de História e de Sociologia oral capaz de criar um repositório polifónico de memórias de pessoas em situação de invisibilidade, de exclusão e vulnerabilidade social. Ao falarem sobre as suas vidas, as pessoas descobrem ângulos novos e apercebem-se que, apesar de únicas, não são ilhas, mas sim um elo numa teia de relações sociais.

A exploração do carvão em Portugal levou-nos a procurar as histórias de ex-mineiros do Pejão. Lúcio Moreira Silva, José Andrade, Manuel Alves Silva, Serafim Silva, Fernando Gomes e Manuel Rosas, seis homens que trabalharam nas minas de exploração de carvão do Pejão, concelho de Castelo de Paiva, e que falam sobre as vivências, relações e condições de trabalho durante o período de exploração mineira. Este trabalho é fruto de uma colaboração entre o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, enquanto núcleo do Museu da Pessoa, o Projeto SOIL* e Teatro Universitário do Porto, que criou uma peça baseada nestas memórias.

Ao ouvi-las, percebemos que os retratos a preto e branco são sempre redutores. O trabalho era duro e havia muita exploração. Mas propiciava encontro, sociabilidade, reconhecimento e luta.

Contar o que aconteceu é um outro modo de continuar a viver. E de não desistir.

Artigo publicado em gerador.eu a 18 de abril de 2023

* Soil health surrounding former mining areas: characterization, risk analysis, and intervention

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário. Doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação, coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.
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