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As pensões e as vidas a descambar

Os factos e argumentos dos aposentados e reformados são de ordem social. Por isso, entre os números e a vida, o fosso é cada vez maior, incompreensível e inaceitável.

As pensões continuam a merecer a nossa atenção porque o assunto não está encerrado. É bem provável que haja quem esteja enfadado; pensões, outra vez? Mas as coisas não estão resolvidas? A provar que não estão, aí vão algumas perguntas:

  1. Dizem-me que a recuperação integral das pensões é impensável e encostam-me à parede com números e cálculos. Contra factos não haverá argumentos mas os meus factos não são de ordem financeira. Durante os anos da austeridade selvagem, foi sobre a classe média que se abateu mais violentamente o saque na procura do equilíbrio financeiro que o governo de direita almejava. Multidões sem fim desceram a Avenida clamando pela reposição integral das pensões. Volvidos cinco anos, constatamos que isso não aconteceu e, gentilmente, afiançam-me não virá a acontecer. A pensão atribuída há oito ou sete anos atrás é história do passado. Se aquilo a que tínhamos direito depois de uma carreira contributiva completa se evaporou, há aqui um problema, ou não?
  2. Os funcionários públicos no ativo reclamam o descongelamento das carreiras. O Governo, que começou por o prometer, mudou de agulha. Em 2018 nem pensem nisso e, já agora, em 2019 também não. Lá para 2021. Palavras leva-as o vento, promessa ligeira ao atirar para um tempo sobre o qual é completamente prematuro assegurar o controlo. Nem o mais tolo consegue engolir este adiamento. As negociações que hão-de acontecer com os funcionários públicos têm de ter paralelo com os trabalhadores aposentados. Ou vamos assistir à progressão de uns enquanto se escondem os outros atrás da cortina?
  3. A inflação ajuda no agravamento da perda real de poder de compra tanto para os trabalhadores no ativo como para os aposentados. Leio na imprensa que a perda de compra anda pelos 10%; se as reposições ficarem pelos valores que hoje conhecemos, adeus convergência. Alarga-se o fosso, a qualidade de vida piorará a olhos vistos, a expectativa de um fim de vida com dignidade será pura quimera. Porque hão-de os reformados abdicar de viver? Porque hão-de os reformados esgotar a sua imaginação a pensar onde e em que condições vão acabar os seus dias?
  4. Um dos fatores que mais abala as nossas pensões é a dedução para a ADSE. De uma dedução zero, devagarinho ganhou raízes: 1,4% (Set 2011), 1,5% (Jan 2012), 2,25% (Set 2013), 2,5% (Jan 2014) até à explosão de 3,5% (Jun 2014). Seguramente para pessoas ainda com idade adequada, este valor é um convite à desvinculação e à procura de um seguro de saúde privado, solução que não defendo. A dedução atual é exagerada e abala o valor líquido da pensão. Agora que se colocam sobre a mesa todas as questões a ponderar na preparação do OE19, parece muito oportuno considerar a descida desta dedução de 3,5% para a ADSE articulando esta medida com a revisão da lei de bases do SNS. O SNS e o subsistema de saúde ADSE são ganhos sociais insubstituíveis não sendo o objetivo da ADSE escoar dinheiro para o setor privado contribuindo para o equipamento deste como não acontece com o público. Isto é uma distorção a exigir um reequacionamento compreensivo contra intervenções pontuais que só beneficiam interesses particulares. Estamos de acordo ou não?

A vida dos reformados virada do avesso, dúvidas, angústias somadas, uma situação incompreensível. Desafio os reformados a fazerem uma leitura comparativa dos recibos das suas reformas ao longo destes anos. Um momento de leitura surrealista, cinco estrelas para este thriller!

O governo de direita embandeirou em arco ao ir além da troika. À esquerda choveram as críticas, sublinhando quão nefasta era esta atitude de menino bem comportado. A partir das eleições de 2015, a derrama foi estancada e entrámos num período durante o qual nos sentimos mais confortáveis e esperançosos. Hélas! Este benefício da dúvida parece ter soçobrado face a nova onda de obsessão pelo cumprimento do défice. Ameaçando esmagar o prosseguimento da recuperação de rendimentos ou os investimentos públicos inadiáveis, com o SNS no topo, eis que chega açodada a conversa em baixar o déficit mesmo para além das exigências de Bruxelas. Se isto não é uma fixação então que nome lhe dar?

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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