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Pensamento crítico para cortar caminho à ultradireita

Não há receitas únicas para derrotar o avanço dos ultras. Mas há pistas. Sabemos que o campo democrático tem de encabeçar as reivindicações das mulheres, dos negros, dos favelados, dos sem-terra, dos sem-teto e dos jovens.

“Desenganem-se os que acham que mudamos o mundo sem tomar o poder. Mas também não dá para tomar o poder e acabar por não mudar o mundo.” A frase é do líder sindical argentino Juan Grabois na abertura do i Fórum Mundial do Pensamento Crítico, que está agora a realizar-se em Buenos Aires e onde me encontro a convite da CLACSO (Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales).

O encontro, que conta com o alto patrocínio da UNESCO, junta quase 50 mil inscritos de 50 países. A lista de presenças anunciadas vai desde Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, Dilma Rousseff, presidente afastada por um golpe no Brasil, Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia, às novas lideranças como Guilherme Boulos e Manuela d’Ávila, candidatos à presidência do Brasil pelo campo democrático, Gustavo Petro, presidente da Câmara Municipal de Bogotá, Gerardo Pisarello, vice-presidente da Câmara de Barcelona, passando por académicos, ativistas e personalidades de várias áreas, como Adolfo Pérez Esquivel, Prémio Nobel da Paz, o jornalista Ignácio Ramonet ou a escritora Isabel Allende.

É a esquerda latino-americana a olhar para si própria com os olhos do mundo. Ou o mundo a olhar para os desafios da resistência democrática a partir dos falhanços e acertos da esquerda latino-americana. Uma coisa é certa: a consciência de que a ascensão dos ultras de direita é um perigo de dimensões mundiais convoca a uma solidariedade extraordinária entre correntes políticas que têm andado muitas vezes a descompasso.

Essa é uma das ideias que saem deste fórum, baseada numa premissa simples: se Trump e Bolsonaro se juntaram para atacar os regimes democráticos, o que ganha o campo democrático em não fazer o mesmo para resistir?

Uma segunda ideia é a de que o caminho é o da constituição de campos democráticos. “Sim, ele foi eleito. Mas ninguém se elege ditador. Ninguém se elege imperador”, afirmou Boulos. Não há democracia sem eleições, mas o contrário não passa de uma farsa. A prova democrática dos regimes está tanto no Estado de direito democrático como na preservação dos bens comuns, a começar pela dignidade humana, mas também da proteção da Amazónia aos setores estratégicos da economia. Seja qual for o seu bode expiatório, um estado de exceção é sempre a suspensão da democracia para a repressão seletiva.

A terceira é a de que isso se faz com unidade popular, e não com o encastelamento das forças políticas de esquerda recentemente derrotadas em eleições. Como referiu Manuela d’Ávila, podemos ainda não ter “gramática” para prever o inverno democrático que enfrentamos, mas sabemos que a crise do capitalismo convoca a um regresso às ruas, à unidade que será construída a partir das bases, mesmo que as lideranças não queiram. E ainda acrescentou, com acerto cristalino, que a internet enquanto espaço de participação social deve ser disputada e não demonizada, apesar do papel das redes sociais na eleição de Bolsonaro ou de Trump.

Daqui decorre uma quarta ideia, a de que esse processo não é monolítico. Não é atingível pela “monocultura” de uma alternativa, de um projeto ou de uma força política, como disse Pérez Esquivel; não será a ditadura de uma maioria, como afirmou Rita Laura Segato (referência do feminismo latino-americano); não se constrói com pensamento único, “porque disso já vive a direita, o nosso campo é o da diversidade”, como lembrou Guilherme Boulos.

Ao olhar para si própria, a esquerda deve saber que os erros não assumidos serão um lastro insuportável nesta difícil travessia do deserto. Seria bom largar esse peso mais cedo do que tarde. Para isso, pensamento crítico é uma expressão-chave e ressurge num momento histórico importante.

Não haverá receitas únicas para derrotar o avanço dos ultras. Mas há pistas. Sabemos que o campo democrático tem de encabeçar as reivindicações das mulheres, dos negros, dos favelados, dos sem-terra, dos sem-teto, dos jovens pelo direito à educação, dos trabalhadores. Sabemos que não pode dispensar a defesa de um setor público forte e a proteção social, que só assim se combatem os medos, incluindo a insegurança sentida pelas classes médias empobrecidas pela crise.

Em resumo, tudo aponta para a urgência de um projeto alternativo à globalização financeira em que as palavras-chave não sejam medo, exclusão, securitarismo, muros, mas democracia, unidade, diversidade, paz, direitos por inteiro.

Artigo publicado no jornal “I” a 22 de novembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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