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Pela Cultura, somar conhecimento, construir pontes

Em boa verdade, é muito prematuro e fora de propósito tecer comentários sobre o novo Ministro da Cultura. Porém, é oportuno levantar algumas questões que a governação deixa sempre penduradas.

Na véspera de ser conhecido o novo elenco governativo, foi publicada no Público uma carta aberta assinada por José Sasportes e Rui Vieira Nery, dois antigos governantes do sector “cultura”, um documento muito interessante, com matéria bastante para reflectir. Independentemente da nossa própria opinião política, parecer-me-ía um desperdício virar costas àquela contribuição apenas por não me rever totalmente nela. A carta elenca questões de ordem organizativa e orçamental que são determinantes para o (bom) funcionamento do sector “cultura”. O Ministério não é um simples arquétipo; pelo contrário, é uma máquina muito pesada, complexa, em muitos sectores inquinada por funcionários que adquiriram há anos o estatuto de “prima dona”. Não se lhes pode tocar, nem às suas opiniões, correndo-se um risco ainda maior de arruinar o funcionamento da Cultura. Esta é, aliás, uma dificuldade estrutural da função pública, não é exclusivo da Cultura, antes fosse. As “prima donas” (tanto elas como eles) constituem a primeira linha vermelha que o governante tem de enfrentar e vencer se quiser chegar a algum lado. A experiência ensinou-me isto, dou o conselho gratuito.

Mas a carta aberta alude a um aspecto que eu valorizo maximamente. Refere o património, o património, senhores, parente abandonado de todo o sector. Poderiam ter saltado por cima do património, podiam ter optado pelas artes performativas sendo Sasportes um profundo conhecedor do mundo da dança e Vieira Nery um eminente musicólogo. Fizeram a única opção correcta, isto é, ao falarem de cultura recusaram as ostracizações.

Uns dias depois, já com elenco governativo, na sua coluna do Expresso, Miguel Monjardino referia a criação de um Ministério do Património. Acho que foi empurrado pela caneta, não tem sentido. Não, Senhor Ministro, a Cultura é uma e outra coisa, é património e artes performativas, a sua governação concomitante proporciona a harmonia e a grandeza que se aguarda. O aspecto positivo do texto de Monjardino é a menção destacada ao património, autonomizando-o. Claro, o património não tem de andar a reboque seja do que for e não tem de partir pedra sozinho. Se fizer o caminho na companhia das artes performativas, cada um beneficiará largamente dessa partilha mútua.

Nesta sequência, o Público voltou a publicar outro artigo sobre as questões da Cultura desta feita assinado por Carlos Vargas. Concorde-se ou não, Vargas teve largas responsabilidades nos sectores da dança e do belo canto em Portugal, não se pode descartar o seu conhecimento a partir de dentro dos sectores relativos. A sua chamada de atenção para a dimensão do Ministério, para a multiplicidade de gentes e saberes, é pertinente e oportuna. A Cultura e a sua máquina não são coisa pequena e, por isso mesmo, espanta-se Vargas como se pode considerar a Cultura como coisa ligeira na plêiade ministerial. Boa pergunta, efectivamente.

E vem, então, a propósito lembrar a última opinião escrita para o Expresso por Pedro Adão e Silva. Considerava ele, putativo ministro, que não se pode partir da estaca zero cada vez que muda o responsável da pasta, Cultura ou outra. Da pasta, da divisão ou do departamento acrescentaria eu. É uma tradição bem solidificada; muda o responsável, tudo quanto foi feito não presta, deita fora, recomeça. Para além de constituir uma fuga e uma forma de não encarar a realidade, trata-se de asneira enorme, com prejuízos e consequências incomensuráveis, custos que o contribuinte paga. Que bom que o Senhor Ministro é contra esta prática!

Há ainda outra prática muito comum que também deveria ser abandonada. Em detrimento de um pensamento estratégico, e da proposta de projectos, os governantes e responsáveis, cadeia hierárquica abaixo, adoram queixar-se da falta de recursos humanos fazendo tudo depender da solução desse problema. Claro que é um problema e pesado mas vamos lá tentar começar pela estratégia, pelos projectos, pela motivação e mobilização dos recursos humanos existentes. Não deixar ir embora quem ainda tem conhecimento e experiência a oferecer, assegurar a passagem do testemunho porque em cultura há muito saber que é intergeracional, que não vem nos manuais, logo, que se perde interrompendo a comunicação. Não garantindo esta ponte, por cada novo governante começaremos sempre do zero, concorde o Senhor Ministro ou não.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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