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Paradoxos Eleitorais

Como é possível que, num momento de austeridade ímpar, o povo tenha confiado maioritariamente em quem defende nada mais, nada menos, do que ainda mais austeridade?

Compreender o comportamento eleitoral dos cidadãos no acto de votação nunca foi uma tarefa fácil. E sobretudo em sociedades onde o individualismo se afirma como valor e realidade dificilmente contornável (o que está longe de ser necessariamente mau), é impressionante a multiplicidade de explicações que orientam o voto do universo de eleitores. Inúmeros paradoxos podem ser encontrados a este respeito. Peguemos então num que assume particular relevo dados os resultados eleitorais do último domingo: como é possível que, num momento de austeridade ímpar, o povo tenha confiado maioritariamente em quem defende nada mais, nada menos, do que ainda mais austeridade? No fundo, como é possível que em tempos de crise, a direita suba?

Embora impulsione oposição e resistência em alguns sectores, o medo perante o cenário de aumento da austeridade que se avizinha origina igualmente uma forte vontade de cedência na esperança que tudo volte rapidamente à normalidade conhecida. Assume-se assim que os sacrifícios virão, que serão injustos, que farão mal a muita gente, mas que serão o preço a pagar para que se regresse logo que possível à preciosa normalidade que tanta segurança nos inspira.

Uma segunda explicação que merece igualmente algum crédito, e que é complementar à que descrevemos acima, diz respeito ao clima de inevitabilidade. Ou seja, em linha com o discurso de que não há alternativa, de que não há outra solução, de que não há outro caminho possível, surge o sentimento de inevitabilidade. Ou seja, assume-se que as soluções austeras preconizadas são as únicas possíveis, como se a política económica deixasse subitamente de ser constituída por abordagens diferenciadas.

Em terceiro lugar, como importante contributo para o referido paradoxo, surge o contagiante desejo de que alguém “ponha ordem na casa”. Ou seja, no meio da confusão instalada, do caos que se adivinha e da contestação social quase certa, o desejo de ordem e até de algum “sossego social” ganham novos adeptos. Deste modo, sai naturalmente reforçado quem defende tais abordagens colaborativas por oposição a rupturas.

Como é evidente, o paradoxo acima está longe de esgotar as explicações sobre o que se passou no Domingo. Aliás, o presente texto começa precisamente por sublinhar a multiplicidade de razões que motivam o comportamento eleitoral. De qualquer modo, ajuda a demonstrar que, para além do caso a, da situação b ou do episódio c, conseguem existir explicações estruturais, de cariz quase psicológico, que ajudam a descodificar uma realidade muito pouco linear.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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