Está aqui

PAF, lá se foi a Saúde

Será uma realidade positiva que o Governo tenha eliminado o ano comum? Será positivo os estudantes terem de pagar propinas limitantes para aqueles que sonham ingressar no ensino superior e não podem? Será benéfico o corte de 300 milhões de euros, entre 2010 e 2015, no orçamento do Ensino Superior e Ciência?

No dia 30 de setembro pelas 16h, ocorreu um debate entre representantes dos partidos presentes na AR (todos eles licenciados em medicina), sobre as legislativas e o futuro da Saúde. Quem representou o BE foi o camarada Afonso Moreira que se licenciou recentemente. O representante da PAF foi Ricardo Baptista Leite, deputado desde 2011, faz parte da Comissão parlamentar para a saúde. O representante do PS foi Álvaro Beleza que já foi deputado. O representante da CDU foi Carlos Silva Santos que foi presidente do Sindicato dos Médicos da Zona Sul. A sala estava cheia de alunos, o que indicava o interesse claro dos meus colegas, estávamos reunidos para debater o futuro do nosso curso e da nossa profissão.

Infelizmente, por motivos de força maior, tive de me ausentar, não podendo estar presente no debate, mas consegui ouvir a introdução de cada um.

O que me espantou (ou não) foi a forma como o Ricardo Baptista (PAF) conseguiu, descaradamente, embelezar o estado do SNS e do curso de medicina. As taxas moderadoras são uma chatice, mas há muitos portugueses isentos. Houve muitos cortes, mas segundo um relatório da Gulbenkian os portugueses continuam, na sua maioria, satisfeitos. O Governo conseguiu reduzir os custos na compra de fármacos, etc. Está tudo bem, não se passa nada.

O mais curioso foi a forma como o Ricardo abordou a questão da extinção do ano comum, para Ricardo o ano comum não deveria acabar. Pois é, mas o Ricardo milita no partido que ditou exatamente a extinção do ano comum, por isso a sua opinião em relação ao ano comum é tudo menos representativa da vontade política da PAF. Talvez esta tentativa, dissonante, de abordar um tema tão sensível, tenha tido em conta ele estar perante a presença de tantos colegas afetados com a decisão da PAF. Esta tática da direita, de omitir a realidade do país, omitir os “números” verdadeiramente representativos, não é outra coisa senão uma grande falta de respeito perante os meus colegas. Eu posso não ter o apoio da OCDE ou da Fundação Gulbenkian, mas mesmo assim tentarei defender a indignação que sinto perante discursos desviantes e ludibriosos.

Será uma realidade positiva que o Governo tenha eliminado o ano comum? Será positivo para os estudantes, terem de pagar as propinas, propinas essas que são na verdade limitantes para aqueles que sonham ingressar no ensino superior e não podem, porque não têm condições para pagar as propinas? Será benéfico para os estudantes o corte de 300 milhões de euros, entre 2010 e 2015, no orçamento do Ensino Superior e Ciência? Será positivo pagar 20 euros de taxa moderadora, quando se paga menos nos privados para quem está coberto pela ADSE ou por certos seguros de saúde? Onde está o acesso gratuito e universal à saúde? Como pensarão o milhão e meio de utentes sem acesso a médico de família? Como estarão os utentes mais carenciados, perante a diminuição na comparticipação do Estado nos medicamentos? Em 2010 era 69.8% e em 2013 passou para 63.2% e claro sem esquecer o encerramento do laboratório militar, que era um apoio enorme para os hospitais. Como estarão os médicos que trabalham em condições deploráveis? Afinal de contas estima-se que há 15% de médicos em burnout (fadiga extrema, com sintomas depressivos). Carreiras congeladas, pressão para racionar nos medicamentos mais caros, urgências a abarrotar e serviços com falta de especialistas. Como estará a saúde dos próprios hospitais, cuja tutela é transferida para PPP’s e misericórdias? Nos últimos seis anos, 10 775 enfermeiros pediram à Ordem a documentação para poderem trabalhar no estrangeiro, entre 2010 e 2015, enquanto mais de 3000 médicos optaram pela reforma antecipada. Todo este desinvestimento quando verificamos que os hospitais privados recebem 427 milhões de euros, quando 417 milhões de euros são destinados para as PPP’s e 1200 milhões de euros são gastos para recorrer a empresas de subcontratação. A fuga dos profissionais de saúde para o sector privado não acontece por acaso, o Governo dá aos privados o que retira ao SNS. Compreendo que todos estes dados são incómodos, mas contra factos não há argumentos. O problema é que a PAF e diga-se de passagem o PS, não têm argumentos porque todos os factos recaem contra eles. Como pode Ricardo Baptista Leite dirigir-se aos meus colegas com um discurso positivo, com discursos de esperança quando o país vai de mal a pior, quando há utentes que passam horas sem serem atendidos. A mentira é a palavra de ordem, a dissonância política é o mote. Julgo que os meus colegas deveriam saber que o défice orçamental é de 7.2%, o mesmo que em 2011 (sem contar com os custos do BPN, encobertos a mando de Maria Luís). O défice aumentou, a dívida pública aumentou, está agora a 130 % do PIB, entre 2011 e 2015 a PAF conseguiu acrescentar mais 50 mil milhões de euros na conta. Portugal teria de produzir num ano aquilo que produz em 16 meses. Todos estes sacrifícios, que Ricardo Batista louvava, para quê? As nossas vidas hipotecadas, os nossos cursos atacados, para quê?

Vamos ser a primeira geração de médicos indiferenciados, pelo caminho que leva a formação médica. Esta situação preocupa o Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI). “A pressão sobre a formação é enorme. Há muitos médicos que estão a abandonar o SNS e isso diminui as capacidades formativas. Obviamente, que isto se vai repercutir na qualidade da formação médica e na qualidade da prática médica e das ações médicas futuras”.

Ficar de braços cruzados, cair nesta demência política da PAF, ficar em casa no dia 4 de Outubro, não são soluções para o nosso futuro. A mudança está nas nossas mãos, no nosso voto!

Sobre o/a autor(a)

Estudante de medicina
Comentários (1)