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Os vistos gold e a imperturbável alma do negócio

Chenglong Li veio para Portugal através do esquema mafioso – mas legal – dos vistos Gold. Foi ele quem comprou o nº 100 da Rua Alexandre Braga, no Porto, junto ao Bolhão. Sobre o caso já aqui escrevi, mas vale a pena lembrar o essencial.

Chama-se Chenglong Li. Veio para Portugal através do esquema mafioso – mas legal – dos vistos Gold. Esses mesmos que continuam em vigor e a ser elogiados como um passaporte para o investimento estrangeiro. Foi Chenglong Li quem comprou o nº 100 da Rua Alexandre Braga, no Porto, junto ao Bolhão. Sobre o caso já aqui escrevi, mas vale a pena lembrar o essencial. O empresário queria especular com o prédio que comprara, mas encontrou um obstáculo: uma família que lá morava, composta por uma mulher de 88 anos e três filhos. Uma família, portanto, protegida pela moratória que não permite despejos nestes casos.

Primeiro, houve contactos do empresário com os moradores, ofertas de dinheiro e a pressão insistente para que deixassem o prédio. Maria Mendes Oliveira, a inquilina, não saiu. Depois, “aconteceu” um incêndio provocado. Apesar do susto, Maria Mendes Oliveira não abandonou a sua casa. O empresário, contudo, não desistiu. Mandou três homens bater à porta e ameaçar a família. Apesar do bullying, das intimidações e do clima de terror, a idosa resistiu – e os filhos com ela.

Acontece que um prédio parcialmente habitado rende menos dinheiro do que um prédio vazio. Na noite de 2 de março, um segundo incêndio provocado alcançou finalmente o objetivo: a casa ardeu. António Gonçalves, de 55 anos, funcionário na Escola Pêro Vaz de Caminha, no Porto, e um dos filhos de Maria Oliveira, morreu carbonizado no meio das chamas. Escapados à morte, os outros membros da família ficaram sem um sítio onde morar.

A tragédia chocou a cidade, mas nem por isso abrandou o negócio. O mercado não se move por sentimentos. Chenlong Li, o empreendedor de 24 anos que comprara o prédio por 645 mil euros, tinha um contrato-promessa de venda daquele prédio por 1 milhão e 200 mil euros. Entretanto, foi preso preventivamente em junho, acusado por homicídio, branqueamento e extorsão no caso da Rua Alexandre Braga. Mas o obstáculo à realização da sua mais-valia urbanística estava finalmente removido – António Gonçalves já não respira e Maria Oliveira, atirada com os dois filhos que sobreviveram para uma casa de emergência num bairro camarário, deixou de ser um estorvo. O crime, que toda a gente conhecia porque fez as manchetes da imprensa e os destaques dos telejornais, não beliscou o interesse da empresa portuguesa atraída pela oportunidade imobiliária.

É certo que aquelas paredes assistiram ao assassinato de um homem e à expulsão de uma velha senhora e da sua família, mas o mundo dos negócios não guarda ressentimentos. Da prisão, Chenglong Li vendeu o prédio pelo dobro do preço que tinha pago por ele, completando o negócio através de uma procuração passada à sua mulher e demonstrando que nada detém o vigor da iniciativa privada na nossa cidade.

Esta notícia foi agora conhecida, quando os 555 mil euros do lucro da transação foram transferidos pelo empresário para o seu país, a partir de um banco português - e a operação foi comunicada ao Ministério Público, que agiu. É o retrato de um crime, mas é mais que isso. É também uma manifestação extrema da lógica de um mercado sem regras e do descontrolo autorizado pela ganância que habita os processos de especulação - esses que o poder cultiva como o atual motor de desenvolvimento do Porto.

É nesta cidade que hoje vivemos. Casos como este, ao levar aos extremos da ilegalidade e do crime a própria dinâmica do sistema, acabam por expor a sua lógica intrínseca. E o nosso Porto só sobreviverá se a derrotarmos.

Artigo publicado em expresso.pt a 10 de janeiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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