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Os sagrados “mercados”

A maioria das religiões orbita em torno de um deus ao qual temos de agradar, custe o que custar. O liberalismo económico não é diferente.

O deus do liberalismo económico chama-se "mercados". A palavra escreve-se no plural mas diz respeito a uma única entidade, perfeita, omnisciente e quase omnipotente. Ninguém criou os "mercados", garantia Medina Carreira num debate televisivo- porque no início, era o mercado. Temos de agradar aos "mercados", jurava Campos e Cunha noutro debate - porque este é um deus vingativo. Os "mercados" exigem a austeridade, garantem-nos Teixeira dos Santos e Eduardo Catroga - porque a purificação espiritual se atinge dando tudo aos "mercados".

Os "mercados", como qualquer deus, não são contactáveis directamente. Não é fácil saber qual é a sua vontade divina, não é algo que esteja ao alcance de um mero mortal. Valem-nos, portanto, estes sacerdotes, treinados no estudo dos textos sagrados dados nas faculdades de Economia, que ficam com a tarefa de nos educar quanto aos sacrifícios que temos de fazer para agradar aos "mercados".

Para um ateu económico, pode ser complicado entender porque nos temos de sujeitar aos "mercados". Afinal, que obtemos nós em troca dos nossos sacrifícios? Para um religioso, contudo, a questão não se coloca. Agradamos aos "mercados", é isso que obtemos. E isso basta.

Alguns hereges, contudo, ousam por em causa os textos sagrados. Mostram estudos económicos que demonstram como cortes na despesa pública conduzem a recessões e, paradoxalmente, a um aumento da dívida pública. Exibem teorias alternativas aos dogmas centradas em desequilíbrios, em irracionalidades, em ciclos, em bolhas especulativas e outros fenómenos associados a mercados livres. Ousam pensar que podemos ter um mundo melhor ainda nesta vida.

Outros hereges vão ainda mais longe e substituem a palavra "mercados" por nomes de pessoas e empresas. Apontam para o constante favorecimento da banca e de grandes empresas pelo governo como sinal de que a política económica é feita à medida de quem tem mais poder económico. Salientam a injustiça da luta de classes dos mais ricos contra os mais pobres que está inerente aos planos de austeridade.

Os sacerdotes respondem a tudo isto que um dia destes, no longo prazo, as coisas melhorarão. Quanto estivermos mortos, encontraremos a salvação. Em nome dos "mercados", do liberalismo e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, Ámen.

O povo, contudo, resiste, demonstrando como ritos pagãos de solidariedade ainda pesam muito nas nossas sociedades. Os sacerdotes reagem aconselhando aos governantes que mostrem o caminho correcto ao povo. À força, se for preciso. Seja feita a vontade dos "mercados".

Deste confronto depende o nosso futuro comum. Se obedecermos aos sacerdotes,continuaremos a construir monumentos para satisfazer os "mercados" e acabaremos na miséria como os habitantes da Ilha da Páscoa. Se desobedecermos, seremos ateus e hereges, mas teremos a liberdade de construir o pleno emprego, a democracia económica e a justiça social. Com os deuses, se existirem, do nosso lado.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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