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Os perigosos radicais

Como seria de esperar, pouco ou nada se esmiuçou sobre o programa da perigosa e radicalmente radical esquerda de Alexis Tsipras.

Ao fim de dois dias, terminou sem sucesso a tentativa de formação de governo por parte do Syrisa. Alexis Tsipras falou com as diversas forças políticas à esquerda e não se concretizou um entendimento que suportasse uma maioria parlamentar. Mas para lá das ilações que devem ser tiradas pelo facto do Syrisa ter sido a segunda força mais votada (análise ainda pouco explorada), o tratamento dado pelos media sobre o que se estava a passar na Grécia foi verdadeiramente lamentável.

Poucas horas depois de ter sido convidado a formar governo, o partido mais votado - Nova Democracia - garantiu não ter conseguido qualquer entendimento. Curiosamente (ou não) ninguém se preocupou em explorar jornalisticamente o significado de tão rápida resistência. A comunicação social preocupou-se sim em rapidamente iniciar uma batalha de adjetivação sobre a tentativa de formação de governo por parte do Syrisa. “Radicais”, “partido radical”, “esquerda radical”, “extrema-esquerda”, “extremistas de esquerda”, não houve manchete que resistisse a uma qualquer destas variâncias. E desengane-se quem acha que tal tratamento aconteceu apenas na comunicação social portuguesa. Da BBC à France 24, passando pelo El Pays, pelo Guardian ou pelo New York Times, a adjetivação e a procura do ângulo mais caótico da notícia foi constante.

Como seria de esperar, pouco ou nada se esmiuçou sobre o programa da perigosa e radicalmente radical esquerda de Alexis Tsipras. Procurava coisas tão exóticas como o cancelamento dos cortes nas pensões e nos salários, abolição da lei que garante a imunidade dos deputados, reforma do sistema eleitoral com vista a eliminar o bónus de 50 deputados para o partido vencedor, investigação aos bancos gregos e publicação de respetivos resultados, auditoria internacional para investigar as causas do défice público na Grécia. Em suma, um verdadeiro horror.

Não querendo minimizar o alcance de algumas das medidas previstas pelo Syrisa, o partido foi de facto sujeito a um ataque cerrado logo que foi convidado a formar governo. Estranho seria se assim não acontecesse, é um facto. Mas não deixa de ser lamentável verificar que, mesmo quando o barco bateu no fundo, mesmo quando já quase nada parece restar, mesmo depois de uma descarada política de terra queimada, qualquer alternativa mais afirmativa seja imediatamente vista como um perigoso radicalismo extremista. Ou um extremismo radical, se preferirem. Paradoxos democráticos…

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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