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Os fazedores de oportunidades

Para Passos Coelho e o seu séquito de vassalos, tudo na vida se resume a oportunidades. E eles estão cá para as oferecer, assim de mão beijada e sem pedir nada em troca. São uns queridos.

Para os jovens, o desemprego e a falta de futuro em Portugal são uma oportunidade para saírem da sua zona de conforto, para atravessarem fronteiras e se aventurarem pelo maravilhoso mundo da emigração.

Para os que ficam, as dificuldades impostas são uma oportunidade para ultrapassarem os seus limites e para mergulharem de cabeça no tão glorioso empreendedorismo.

Para os desempregados, as regras de acesso e manutenção do subsídio de desemprego são uma excelente oportunidade para investirem em si, valorizarem os seus currículos e adquirirem formação em coisas tão importantes como 'empreendedorismo', lá está, 'técnicas de relações laborais' ou ainda 'técnicas de andares em hotelaria'.

Para as crianças e estudantes, a mediocridade a que querem reduzir a educação e a escola pública, a falta de professores, funcionários e até de escolas, são a oportunidade certa para que os alunos se destaquem como os melhores entre os melhores.

Para os doentes e para os mais velhos, os aumentos das taxas moderadores, o fecho de serviços e os cortes nos tratamentos e operações, são a oportunidade para irem desta para melhor. E quem não quer ir para melhor?

Para os que ainda têm emprego, Passos Coelho oferece agora a oportunidade de rescindirem amigavelmente os seus contratos e de descobrirem assim dentro de pouco tempo, de perto e por dentro, os corredores dos Bancos Alimentares e das Lojas Solidárias.

A muitos desempregados de longa duração, foi dada a oportunidade única de partilharem as alegrias da vida ao ar livre e em comunidade, debaixo de arcadas e em estações de comboios, do regresso às origens, do desapego às coisas materiais e absolutamente supérfluas que só complicam a vida das pessoas, como a casa, o carro, o telefone, a eletricidade e até o banho.

Portugal é agora a nova terra das oportunidades. Qual América qual quê. Mais oportunidades que em Portugal não há.

Finalmente Passos Coelho e o seu séquito de vassalos, com a sua política de austeridade, a sua devoção aos interesses financeiros e a sua submissão à troika, ofereceu aos portugueses a maior oportunidade de sempre. Daquelas que acontecem poucas vezes na vida e que importa agarrar com unhas e dentes. Das que permitem que se mantenha viva a esperança numa vida mais digna, num futuro melhor, numa sociedade mais justa.

Muitos já a perceberam, já a agarraram e juntaram a sua vontade à de tantos outros pelas ruas de Portugal. Primeiro em Setembro, depois em Março e em tantos outros momentos e em tantos lugares. Espera-se agora a qualquer momento que o Tribunal Constitucional se pronuncie sobre o Orçamento de Estado de 2013. Destas apreciações poderá depender a continuidade deste Governo. Mas independentemente dos acontecimentos próximos, não percamos a oportunidade de lutar pelos nossos direitos, por um futuro digno e justo. Não percamos a oportunidade de reafirmar todos os dias, a todas as horas, em todos os lugares e até que nos oiçam: Sr. Primeiro-Ministro, demita-se já!

Sobre o/a autor(a)

Feminista e ativista. Socióloga.
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