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Os Fantasmas Alemães

O mais curioso de todo este universo fantasmagórico alemão em torno da inflação é que um outro fantasma germânico desapareceu por completo nestes últimos anos: o fantasma da II Guerra Mundial.

Considerar que a falta de solidariedade alemã é a única e grande responsável pela crise em que a Europa continua mergulhada é excessivo. Contrariamente à perceção que nos é passada pela comunicação social, a Europa não se resume à Alemanha, à França e aos PIGS. Existem os restantes 20 países europeus de quem pouco se ouve falar. Se calhar a sua mudez não reflete menos a falta de solidariedade europeia do que os posicionamentos de Merkel. De qualquer modo, pelo papel preponderante enquanto maior economia europeia, e pela perda de quaisquer complexos ou pruridos em assumir um papel liderante do todo comunitário, não há como ignorar as grandes responsabilidades alemãs.

E quando esmiuçamos o porquê de tal falta de solidariedade de Merkel, surge-nos sempre a história do fantasma da inflação que supostamente atormenta o eleitorado alemão. As recordações dos anos 20, a imagem de um carrinho cheio de notas para comprar um pão, são então apresentadas como grandes explicações do atual comportamento germânico. Reduzir ao mínimo as ajudas aos países em dificuldades, focar-se apenas no equilíbrio das contas públicas, eis a receita que tem sido seguida por Merkel para afugentar o referido fantasma.

Mas o mais curioso de todo este universo fantasmagórico alemão em torno da inflação é que um outro fantasma germânico desapareceu por completo nestes últimos anos: o fantasma da II Guerra Mundial. Um fantasma que, importa não esquecer, permitiu acalmar os ânimos alemães na segunda metade do século XX e que, por sinal, garantiu o empenhamento alemão numa Europa unida, solidária, convencida dos benefícios de um desenvolvimento harmonioso dos seus Estados-membros. Um fantasma muito útil, portanto.

Em poucos anos, Merkel conseguiu que a Alemanha voltasse a ser alvo de fortes animosidades um pouco por toda a Europa. Perguntem a um grego, a um português, e um espanhol ou a um italiano o que hoje acham dos alemães. Os sentimentos anti-germânicos atingem agora níveis como há muitas décadas não se via. Merkel conseguiu afastar o fantasma da II Guerra da mente do seu eleitorado. O problema é que este fantasma passou agora a andar à solta, atormentando o consciente e inconsciente de cada vez mais europeus. Escusado será sublinhar a gravidade deste cenário.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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