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Os facilitadores

O que no livro “Os facilitadores”, escrito pelo jornalista Gustavo Sampaio, se escalpeliza é um dos lados mais opacos – mas também mais espessos – do poder em Portugal.

Leiam um livro importante. Chama-se “Os facilitadores” e foi escrito pelo jornalista Gustavo Sampaio. O que nele se escalpeliza é um dos lados mais opacos – mas também mais espessos – do poder em Portugal, aquele que é exercido por grandes sociedades de advogados na sua intimidade com o poder económico e com o poder político. Sendo que, nessa função de intermediação, o que se joga é a captura do poder político democrático pelo poder económico e financeiro mais anónimo.

Gustavo Sampaio analisa, com o rigor e a fundamentação que se espera de um irrepreensível trabalho de investigação jornalística, os caminhos daquela intimidade. Ela passa invariavelmente por ajustes diretos de milhões de euros pagos para aconselhamento e para prestação de serviços jurídicos vários. Contratos, engenharia financeira, regulação de exceção, concessões e, mais que tudo, produção legislativa que, no momento seguinte, estão a beneficiar um sócio do escritório que, por mero acaso, é dirigente político ou mesmo governante – eis a promiscuidade de que se faz o poder denso e não sindicável democraticamente. Privatizações, refinanciamentos de bancos, parcerias público-privado, todas as alavancas da tomada do Estado pelo poder económico e financeiro ligam, através destes atores tão discretos, agendas de interesses antes constituídas a exercício de poder posteriormente tido como inevitável e tecnicamente perfeito.

O que este livro traz para o centro do debate público é afinal o conteúdo do Estado informal e labiríntico que há em Portugal. Conhecíamos a sua versão de alterne, a triangulação entre especulação imobiliária, clubes de futebol e poder autárquico. Ficamos agora a conhecer melhor a sua versão palaciana, a triangulação entre sociedades de advogados, grupos empresariais e dirigentes políticos.

Trata-se, por isso, de um importante contributo para a luta democrática que urge fazer em Portugal: a luta contra a opacidade e contra a astúcia de quem, como comentador, critica uma empresa pública para depois, como advogado, redigir a legislação da sua privatização e depois ainda, como deputado, aprovar essa mesma legislação (e, quem sabe, vir a aconselhar juridicamente ou até integrar o conselho de administração da empresa privatizada…).

Sugiro que leiam. Ganharão conhecimento. E indignação.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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