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Os animais de um deus menor

Os Açores não foram, nem são, exemplo do bem-estar e respeito animal. Foram décadas de falta de trabalho numa área que, para além de cívica, é também uma questão de saúde pública. Muito tempo de incumprimento por parte das autarquias e de negligência na sua fiscalização.

São muitos os testemunhos (alguns documentados) relativos à negligência, a maus tratos, a ninhadas indesejadas, a afogamentos em baldes com água e a milhares de abates de animais saudáveis.

Infelizmente, nesta região, e embora se fale muito no abate zero, ainda se considera o abate como uma forma de controlo da sobrepopulação animal. Isto acontece porque nunca perceberam que o problema residia no número de ninhadas indesejadas e na necessidade de campanhas de esterilização massivas.

Os pensamentos resultantes das transformações sociais proporcionaram um novo paradigma relativo à interação pessoa/animal, levando à alteração de comportamentos, sendo que a pressão das pessoas determinou que a política animal fosse repensada.

Instituindo-se o animal como um ser senciente, o que não foi bem recebido por alguns quadrantes políticos, foram implementadas medidas para colmatar anos de uma lacuna profunda.

Nos Açores, ao contrário do resto do país, só em 2022 o abate será proibido. No início da presente legislatura, o BE apresentou uma proposta que previa a antecipação do fim do abate. Foi chumbada.

Embora nem todos os canis cumpram o que está na lei (desparasitação, vacinação, chip e esterilização), há trabalho feito: canis que deviam existir há anos começaram a ser construídos. Ninguém poderá negar a redução dos abates. Pelo menos nos números que são tornados públicos, muitas vezes, pela persistência do BE.

No entanto, há pessoas que têm sido fundamentais para que o Sr. Secretário Regional da Agricultura e Florestas, profira declarações acerca da redução do abandono e dos abates. São aquelas pessoas que optam por não permitir que os animais cheguem aos canis; que servem de família de acolhimento temporário (FAT); que implementam o projeto “Captura, esterilização e devolução” (CED); que são voluntárias em associações. Aquelas pessoas que dão grande parte de si para fazer o que as autarquias, com a conivência dos sucessivos governos regionais, não fizeram.

Ultimamente, os apelos de ajuda publicados pelas associações desmentem os tons rosa do senhor secretário. Os abandonos multiplicaram-se, os animais a necessitar de cuidados veterinários aumentaram, as contas nas clínicas veterinárias aumentaram e a alimentação e dinheiro diminuíram substancialmente.

Pasmem-se! Afinal, o período de pandemia não afetou somente as ganadarias, às quais são atribuídos milhares de euros por parte das autarquias e do governo regional.

Como em tudo, há quem critique a preocupação com o bem-estar animal. Há quem tente fazer parecer que a preocupação animal seja sinónimo de despreocupação com os mais desprotegidos da sociedade; quem denomine as pessoas com essa preocupação de nazis (só porque o Hitler gostava da sua cadela de raça, não mencionado que o mesmo ordenava o abate a tiro dos cães das crianças judias, na frente das mesmas)...

Nas listas do PS, recentemente tornadas publicas, é visível a ausência das pessoas que tentavam manter o bem-estar animal na agenda do partido. Não conseguiram muito, somente o que a hipocrisia de alguns lhes permitiu. Dos restantes partidos não há mesmo nada a dizer porque, para além do Bloco de Esquerda, nada fizeram para além de votar contra o bem-estar animal.

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores. Licenciada em Educação. Ativista pelos Direitos dos Animais. Coordenadora do Bloco da Ilha Terceira
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