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Onde Marcelo não foi

Em dois anos de presidência, foram poucos os sítios onde Marcelo não esteve. Mas as suas ausências são consistentes: CTT, PT/Altice, Triumph. Onde há luta de trabalhadores, Marcelo está ausente. E isso marca o seu aniversário.

A 9 de março de 2016, o Jornal de Negócios escrevia sobre “o dia frenético em que o Presidente eleito passou a Chefe de Estado”. Segundo o jornal, Marcelo “começou cedo o dia e terminou tarde”. Passou o dia “de um lado para o outro, a apelar à união e a tentar cumpri-la”. Isto tudo – andar de um lado para o outro a apelar à união e a tentar cumpri-la – foi apenas o primeiro dia.

Cem dias depois, já Marcelo era “hiperativo a promover afetos” no Correio da Manhã (14/06/2016). No natal de 2016 Marcelo tinha voltado a ser “frenético” (jornal Público, 27/12/2016) mas aos seis meses estava “imparável”. No final do primeiro ano, o Dinheiro Vivo (09/02/2017) arriscava uma tripla: Marcelo era “interventivo, hiperativo e comunicador”.

Já aos 100 dias a contabilidade impressionava. 250 iniciativas numa média de 3 ao dia e - pormenor destacado em todos os jornais à altura - Marcelo esteve calado apenas em 19. Fazendo as contas a dois anos de mandato, Marcelo manteve-se calado em pelo menos 133 iniciativas.

Como isto cansa, a 1 de novembro de 2017 a Flash alertava que o Presidente da República estava “no limite das suas forças” e “preocupado” com o facto. O próprio estava preocupado com o próprio. Marcelo não fala apenas por Marcelo, mas também pelo público que o observa.

A feira mediática importa porque, como José Manuel Pureza sintetizou sobre os dois anos desta presidência, Marcelo “é assim. Não há nada que não seja totalmente refletido e totalmente espontâneo ao mesmo tempo”. Foi por isso que o diagnóstico de Passos Coelho sobre Marcelo falhou tão espetacularmente. Marcelo não se trata de nenhum catavento mediático mas sim de quem procura definir os ventos que sopram. Por isso, as suas ausências falam alto e têm mais importância do que qualquer amalgama de adjetivos.

Os sítios onde Marcelo esteve ausente - CTT, PT/Altice e, agora, Triumph, são três casos de ataque dramático àquilo que significa trabalho e justiça social. Marcelo não foi visto numa única iniciativa de trabalhadores destas empresas. Nem sequer em silêncio ou a criar um dos seus momentos de inocência – ver abaixo “Mas eu ponho a tampinha”.

Como é que um Presidente “interventivo, hiperativo e comunicador” consegue sequer ignorar a oportunidade de estar com milhares de pessoas aflitas com o seu futuro? O problema é outro. A luta das trabalhadoras da Triumph – por toda a solidariedade e momentos de esperança e festa que promovem – são impossíveis no mundo de Marcelo. CTT, PT e Triumph são as ausências de Marcelo. E cabe à esquerda que se leva a sério garantir que elas não se deixam definir por uma presidência que as ignora.

 

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