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O Titanic e o Governo de Passos Coelho

A política de transportes que o Governo tinha anunciado em Novembro, como sendo “decisiva” para o reequilíbrio do setor dos transportes, está a ir ao fundo. Tal como o Titanic.

Passaram, no passado dia 14 de Abril, cem anos que se registou o naufrágio do Titanic, em pleno oceano Atlântico, ao largo da Terra Nova. Uns dias depois, o Secretário de Estado dos Transportes (SET), Sérgio Monteiro, foi à AR, à Comissão Parlamentar de Obras Públicas, Transportes e Comunicações (CPOPTC), dizer aos deputados que, já tinha dados instruções “há quinze dias, para reforçar a oferta do Metro na Linha Verde (C.Sodré-Telheiras)”. Aparentemente, estes dois factos não têm relação entre si. Mas o que parece é que a política de transportes que o Governo tinha anunciado em Novembro, como sendo “decisiva” para o reequilíbrio do sector dos transportes, está a ir ao fundo. Tal como o Titanic, coincidindo com a semana em que esse trágico acontecimento fez os títulos de toda a comunicação social.

A redução da oferta do Metro na Linha Verde, para 3 carruagens, implicou a sobrelotação na circulação das composições, em qualquer hora do dia, especialmente nos períodos de ponta. 15 depois das “indicações” que Sérgio Monteiro terá dado ao Metro para reforço do Metro na Linha Verde, a situação continua na mesma: o Metro continua a circular apenas com 3 carruagens. Mais um embuste do Governo, que se tem especializado em aldrabar tudo e todos ou simplesmente mais uma manifestação da incompetência governamental nesta área, apontada por alguns como sendo dirigido por um “reputado técnico do sector” ou por um ministro “especializado em economia portuguesa” na Universidade de Vancouver?

Seja como for, a decisão singular de pôr uma linha das 4 linhas do metro, a circular com um nº de carruagens reduzido (3), quando “por acaso” até nem é a linha com menor procura (a linha que tem menor procura é, claramente, a linha vermelha), foi apontada como sendo uma forma de “reduzir custos de exploração”. Tal “decisão” revela não só um profundo desconhecimento da estrutura de custos do setor e da empresa, como especialmente manifesta a mais completa ignorância em matéria de gestão operacional de um transporte pesado, que é uma peça chave no sistema de mobilidade da cidade de Lisboa e da AML.

Isto para além das péssimas condições de transporte que se oferecem aos utentes do metropolitano, precisamente numa altura em que os passes dos transportes em Lisboa subiram brutalmente (especialmente os do Metro). É claro que a indignação que tal decisão tem provocado, e que já motivou uma petição que corre na net (com larga adesão), pode explicar, de alguma forma, o “recuo” do SET, tal como aliás em muitos outros domínios, onde este SET se tem mostrado um “profundo conhecedor” de transportes…

A “receita” do SET é simples: menos transporte e mais caro. Esta foi a via escolhida pelo Governo no início desta “história” mas que tem vindo a naufragar sucessivamente.

Assim parece com o Metro, em que, para além do episódio das 3 carruagens na Linha Verde, teve no passado outras manifestações que foram “estudadas” por um tal grupo de trabalho que apoiou o Governo no anúncio de outras “medidas inteligentes”, como foi o caso, de passar a fechar o metro às 23h e, em alguns casos, às 21h30, a redução da velocidade de circulação dos comboios (para poupar energia), etc, etc. Esta última “medida”, que também não deve ter passado do papel, porque, senão, os intervalos de passagem nos períodos de ponta de manhã e da tarde, teriam aumentado (e não o foram), tem no entanto servido para “justificar” uma degradação de frequências, em todas as linhas, fora das horas de ponta, o que acarreta uma redução inaceitável de qualidade; isto numa altura em que, repete-se se paga mais 50% pelo mesmo transporte.

Outra manifestação do “naufrágio” em que a política de transportes do governo está a mergulhar, diz respeito aos cortes brutais que chegaram a ser anunciados para a Carris, em Lisboa. Também neste caso, a montanha pariu um rato.

Primeiro, era para ser a supressão de 16 carreiras (incluindo, toda a rede da madrugada, a 18E e várias carreiras diurnas), bem como de todas as extensões de carreiras à periferia suburbana de Lisboa (Oeiras, Odivelas, Loures, Almada), a eliminação das chamadas “redundâncias” de serviço (isto é, eliminar ou alterar o percurso de todas as carreiras que circulam em cima da rede do metro), o encurtamento de dezenas de carreiras, a redução de frequências, a redução de horários de funcionamento, etc, num total de 53 carreiras afetadas (cerca de 56% da rede Carris); chegou-se mesmo a estudar um serviço de transportes em autocarros de substituição do ML, a partir das 23h.

Depois, a coisa começou a fiar mais fino e os “cortes inteligentes” que iriam ser a “solução” para o equilíbrio da exploração provocaram um vendaval de críticas, quer por parte da população diretamente afetada, quer também por parte de todas as autarquias envolvidas, que o SET recuou em toda a linha.

No final, embora tenham sido aplicados diversos cortes inaceitáveis (como, por exemplo, a supressão da carreira 10 ISEL-Pç.Chile), tenha sido decidido uma redução brutal nos serviços aos fins-de-semana e muitas frequências se tenham degradado significativamente, com um aumento em todas as carreiras nos intervalos de passagem e uma sobrelotação dos veículos (em algumas carreiras, é mesmo durante todo o dia!), a verdade é que o SET e o Ministro da Economia tiveram nesta matéria “entradas de leão e saídas de sendeiro”.

Mas o verdadeiro naufrágio, o pleno afundamento, ainda está para vir. Com estas medidas todas, de “cortes” na oferta, mais os aumentos brutais no custo dos transportes, que em menos de um ano, tiveram aumentos, em muitos casos, superiores a 100% (passes de estudantes e idosos, por exemplo), as pessoas tinham de “reagir”.

Antes, a Carris tinha uma campanha de promoção do transporte público que assentava na ideia simples de “menos um carro + transporte + melhor ambiente”. Agora, com a redução dos transportes e o aumento de preços, o resultado é: “pior ambiente – menos transporte + carros”. Tudo ao contrário do que se disse durante anos e que fez parte das campanhas eleitorais de todos os partidos. É bom não esquecer que todas as medidas decididas para Lisboa, tiveram o beneplácito da Câmara de Lisboa, pela simples razão da CML nunca ter assumido verdadeiramente uma política de transportes para a cidade como medida da sua política autárquica. Mas isso é matéria para outro artigo.

E o resultado desta política já está aí a bater à porta das empresas de transporte, em Lisboa: no primeiro trimestre de 2012, a redução da procura de validações de títulos de transporte na rede da Carris é da ordem dos 20% e, no Metro, também anda à volta dos 15%! Ou seja, há menos 20% (!) de passageiros a serem transportados em Lisboa, o que compaginado com uma redução na oferta na ordem dos 12%, significa que se está a assistir a uma degradação dos resultados da exploração, o que prenuncia que o risco maior é que “o doente não venha a morrer da doença mas sim da cura”! Basicamente, a fatura no final do ano vai subir… Lá se vai mais um “objetivo” da política deste governo que terá de ser “ajustada”, que, no caso deste governo, significa com certeza que se prepara mais um embuste no discurso governamental e que alguém ainda vai pagar pelo afundanço completo desta política, que, no princípio, se chamou de “estratégica”, mas que é cada vez mais claro que é de ruína.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda, economista.
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