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O regime da crise na crise do regime

O deslumbramento de alguns dos dirigentes socialistas e opositores dos acordos com a esquerda, que agora namoram a ideia de uma aliança PS-PAN, diz muito da forma descuidada e impante como se tratam as respostas que um partido deve ao país.

Que cada um puxa a brasa à sua sardinha, essa é uma velha lei da Humanidade e ninguém será exceção (muito menos este cronista, a bem dizer). No entanto, essa sabedoria não basta para interpretar a pequena quezília provocada pela declaração do Presidente numa sessão na Fundação Luso-Americana, onde antecipou uma longa crise das direitas. Poderia resumir-se tudo a um Presidente que teme o desequilíbrio do sistema político e que sabe que, nesse caso, a cooperação com o Governo do PS, no que alguém chamou um “bloco central institucional”, passaria a ser desvalorizada pelo predomínio do primeiro-ministro depois de uma vitória por larga margem, ou a um líder do PSD que, na emergência, se refugia em banalidades sobre uma crise universal dos regimes políticos para evitar comentar a perspetiva do seu partido, ou a uma líder do CDS que só quer que as festas juninas cheguem o mais depressa possível.

Poderiam acrescentar-se os disparos de alguns avulsos históricos do PSD contra Marcelo, e nem foram muitos e nem sequer expressivos, que vieram pedir contenção ou outras rimas. Ficamos então com uma conversa em circuito fechado, que se esboroará logo que os resultados das eleições de outubro destaparem a incapacidade da direita em criar polarizações políticas, em sair do seu passado amargurado – tudo isto navega em torno do ansiado regresso de Passos Coelho, o que já diz tudo sobre a novidade que a direita apresenta ao país – e em disputar o centro, onde o PS se instalou solidamente.

Ora, há nisto ainda mais fogo do que fumo. Há de facto uma crise de regime e é em vários países, crise larvar nuns casos, explosiva noutros. Pelo menos na União Europeia é assim, ainda havemos de ver que solução é alcançada para os cargos da Comissão, do Conselho e do BCE. E, como a UE é o alfa e o ómega de toda a ideologia e política das direitas e do centro, obrigando-os a uma convivência comprometedora, esta instabilidade destapa as suas dificuldades estruturais. Em vários dos países mais poderosos já não se sabe o que é o regime, nem quais são os partidos, nem qual o caminho imediato. Amontoam-se fantasmagorias, os tratados são substituídos por atos discricionários, a economia é incompetente, os entendimentos são minúsculos e as soluções são perversas, da imigração à moeda, os dirigentes são um susto. Ainda por cima, a nossa crise de regime nacional tem ainda outros contornos, além da contaminação europeia. O modelo atual, adiando a restruturação da dívida para uma gestão de curto prazo das contas públicas, impõe restrições pesadas ao desenvolvimento social e à reconversão energética, como se vai verificando pelo estertor de alguns serviços públicos e pela falta de investimento noutros, apesar do alívio nas bolsas de quem trabalha. Dez anos de restrições (ou vinte, no caso da ferrovia) têm um preço elevado em hospitais, escolas e transportes, que rebentam pelas costuras. Não sei por isso que vantagem consegue a direita ao sugerir que há uma crise de regime, para alegar que a coisa é mais vasta do que as suas misérias correntes: lembra simplesmente que andou por aí a fazer das suas e, no melhor dos casos, limita-se a exibir aquele argumento trivial de que são todos culpados.

Então, se há uma crise de regime, há um regime de crise nessa crise de regime. E é isso que atinge a direita e, aliás, pode não poupar o centro, assim como constitui um desafio às esquerdas. Começo pelas direitas: o regime de crise é essa forma de ser em que a direita se limita a ensaiar truques para se safar. As campanhas de Nuno Melo e de Paulo Rangel foram exemplares a este respeito. Houve muitas fotos, casos, acusações, a política foi substituída pelo frenesim. Vai continuar a ser assim. Tenho escrito, e estou cada vez mais convencido disso, de que o efeito Trump ou Steve Bannon vai ser profundíssimo nas direitas, vão imitar as tecnologias tóxicas (quem foi que lançou o sms anunciando a eleição do Basta! e do Aliança na tarde do domingo das eleições?), vão radicalizar as políticas (a “ideologia de género” é repetida pelos mais inesperados bolsominions), vão tentar criar uma agenda de “corrupção”, vão multiplicar o ódio, vão entrar nos debates ao tiroteio. Foi um fiasco nas europeias e, em vez de ficar de lição, a parada será aumentada nas legislativas. A crise das direitas, como adivinhou o Presidente, veio para ficar, vai substituir os dirigentes atuais, vai redirecionar as políticas destes partidos e será para pior. Este regime de crise é um caminho em que não se volta atrás.

No centro, a questão não é menor. O regime da crise é neste caso a substituição da política pela ânsia do poder absoluto. Maioria absoluta ou morte, é uma chantagem que já foi ensaiada na crise da demissão do Governo por causa dos professores, episódio caricato que mostra até onde se pode chegar neste desvario. Agora acumulam-se os erros de presunção: a escolha da lista para as europeias teve o seu preço, o afastamento forçado de Ferro Rodrigues poderá ter mais ainda, e o deslumbramento de alguns dos dirigentes socialistas e opositores dos acordos com a esquerda, que agora namoram a ideia de uma aliança PS-PAN, desmerecendo o PAN como se se tratasse de um novo Daniel Campelo, diz muito da forma descuidada e impante como se tratam as respostas que um partido deve ao país. Percebo a pressa: intuindo tempos difíceis e uma União em desgaste, com tensões económicas e custos adicionais para manter o status quo das políticas sociais, o Governo quer ganhar margem de manobra que evite as pressões da esquerda e lhe permita desenvencilhar-se com uma navegação à vista, regressando ao que sempre gostou de ser. Assim, o PS, erigido em partido do regime, quer voltar ao mais subtil e perigoso dos seus inimigos, ele próprio.

Finalmente, o regime da crise não poupará as esquerdas. Exige-lhes que apresentem propostas consistentes e gente capaz de responder à crise do regime. O regime da crise, neste caso, é o duplo desafio de manter a sua representação social e de ampliar o seu espaço de ação para passar a ser protagonista das alternativas. Se a direita vai viver os seus anos de crise, a esquerda deve passar a ser a condição da política portuguesa. Veremos se é capaz.

Artigo publicado em expresso.pt a 4 de junho de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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