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O que queres ser quando fores grande?

Queremos ou não que cada criança tenha a oportunidade de escolher o que quer ser quando for grande independentemente da condição socioeconómica dos seus pais?

Há ministros que não conseguem estar muito tempo afastados dos holofotes da ribalta. Mesmo que as razões sejam as mais erradas e as situações as menos dignificantes. Nuno Crato é um desses ministros. Arrogante, prepotente, autoritário e profundamente desconhecedor do que Educação realmente significa, não desperdiça uma oportunidade de ser o centro da atenções do país.

Nuno Crato não esconde que a sua arqui-inimiga é a escola pública. Sabemos portanto que o aumento do número de alunos por turma, o encerramento de escolas, a diminuição das ofertas curriculares, o corte de verbas, o despedimento massivo de professores, fazem parte de um plano cuidadosamente arquitetado para esvaziar a escola pública da qualidade que conseguiu alcançar nos últimos anos, para lhe retirar o sentido e sobretudo a utilidade. O objetivo que subjaz a esse plano é também conhecido por todos. Favorecer os colégios privados, privilegiar os grandes grupos financeiros, canalizar verbas do público para o privado, no fundo, substituir a educação pública pela educação privada através dos impostos de todos. O resultado é o regresso ao passado, ao aprofundar das desigualdades no acesso e na oportunidade de educação. Aos colégios para os ricos e à escola profissional para os pobres.

Mas para além deste cenário dantesco em que Crato está empenhado em mergulhar a Escola Pública, presenteia o país, de tempos a tempos, para que não nos esqueçamos que existe, com a sua conceção bolorenta de Educação. Para o ministro da Educação a escola ideal parece ser a dos professores de régua na mão e a das lenga-lengas da tabuada e das datas de nascimento e morte de cada Rei da História de Portugal. Memorização é, para Nuno Crato, o apogeu da aprendizagem e a avaliação o seu conceito chave da Educação.

A última novidade foi a de criar o exame final de Inglês. Porque segundo Crato, é isso que “colocará os alunos portugueses a um nível internacional”. Que importa que chova nas escolas, que as turmas sejam tão grandes que muitas salas não tenham sequer cadeiras e carteiras suficientes para todos, que importa faltarem professores ou que muitos alunos não tenham acesso aos livros escolares e ao material básico, se afinal, basta fazerem um exame para que fiquem colocados a um nível internacional?

Temos agora exames e avaliações em todos os ciclos de ensino, não porque os alunos aprendam mais ou fiquem melhor preparados com exames de final de ciclo mas para separar o trigo do joio. A ideia de criar vias profissionais logo no final do primeiro ciclo são disso prova bastante. Passas no exame final? Pode ser que chegues a técnico intermédio, quem sabe a quadro superior se os teus pais tiverem dinheiro para as propinas privadas das universidades públicas. Se não passares, tens aqui muitas vias, podes ir para mecânica, estética ou aprendiz fabril. Diz-me, o que queres ser quando fores grande?

O ideal da igualdade de oportunidades é para este ministro uma perda de tempo e um pormenor sem importância. Se nada fizermos retrocederemos num ápice à escola de classes, à educação para as elites, a um país atrasado e a um futuro condenado. Contudo, para agirmos convém sabermos exatamente que tipo de país e que tipo de Escola queremos. Para isso basta que respondamos a uma questão: Queremos ou não que cada criança tenha a oportunidade de escolher o que quer ser quando for grande independentemente da condição socioeconómica dos seus pais?

Sobre o/a autor(a)

Feminista e ativista. Socióloga.
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