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O Porto, cidade com caráter

O Porto perdeu população, mais de 5500 pessoas nos últimos dez anos, a maior percentagem entre as grandes cidades. O preço das casas disparou, sem que os salários o consigam acompanhar. Habitação pública, nem vê-la. O Porto ganharia com mais pluralidade na Câmara.

O Porto continua lindo. Ainda há pouco o comprovei, sentada no Muro dos Bacalhoeiros, entre um fino e uns bolinhos de bacalhau. O casal que toma conta do bar do Grupo Desportivo do Infante é bem o exemplo daquela franqueza acolhedora do Porto, direta e sincera, sem rodriguinhos. E aproveitou para pôr a conversa em dia. Qualquer pessoa que olhe o Porto para além do bilhete-postal sabe que nem tudo são motivos para sorrir.

O Porto perdeu população, mais de 5500 pessoas nos últimos dez anos, a maior percentagem entre as grandes cidades. Tal como noutros lugares, o preço das casas disparou, sem que os salários o consigam acompanhar. Habitação pública, nem vê-la.

O alojamento local tomou conta do Centro Histórico e não falta gente que foi posta a andar, vítima de despejos, de assédio imobiliário ou enganada com novos contratos. O Porto é conhecido por receber bem, mas é preciso que seja uma cidade habitada para que possa continuar a fazê-lo. E se as receitas do turismo são bem-vindas para os comerciantes (não critico ninguém por querer visitar o Porto!), o facto é que os baixos salários, a informalidade e a precariedade são a regra neste setor. A pandemia foi ainda mais dura para tantos trabalhadores informais que ficaram sem salário e sem proteção. Se já sabíamos, ficou mais evidente que a monocultura do turismo nunca é uma boa solução para uma cidade, seja o Porto ou Lisboa.

A oferta cultural é muita, sem dúvida, mas quem quiser uma agenda cultural da cidade, onde possa saber o que está a ser feito por toda a gente, não vai encontrar. Só se encontra a agenda dos eventos produzidos ou programados pela Câmara.

E junto à Ponte da Arrábida e àquele terraço de vistas incríveis sobre o Douro, no restaurante instalado onde outrora Edgar Cardoso construiu a "Casa do Rio" para acompanhar a construção da ponte, não deixa de chocar o enorme mamarracho que ali está a nascer. Como é que alguém autorizou aquilo? Além do crime patrimonial junto a um monumento classificado, quem vai conseguir viver ali, com aqueles preços? A quem serviu aquele negócio?

Rui Moreira gaba-se dos feitos na cidade e parece sair quase incólume da acusação gravíssima da juíza que analisou o caso Selminho, a imobiliária da qual também era sócio. Atuou, diz o Ministério Público, "deliberadamente contra a lei, obrigando o município aos interesses da Selminho, com [a] única intenção de beneficiar a empresa de que o próprio arguido, seus irmãos e sua mãe eram sócios". Veremos o que conclui o julgamento. E, caso Moreira perca o mandato, quem será afinal presidente.

Uma coisa é certa: o Porto ganharia com mais pluralidade na Câmara, mais vozes atentas, críticas e propositivas. As maiorias absolutas fizeram sempre mal ao país e não é diferente nas autarquias. O povo do Porto é que sabe, ninguém é dono dos votos. Mas não duvido que ficaria a ganhar com uma voz do Bloco no Executivo municipal.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 14 de setembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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