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O ovo da serpente

A extrema-direita avança hoje como uma maré pastosa em boa parte do mundo, da Rússia aos EUA, na Europa, na Índia, no Brasil.

Por toda a parte, candidatos providenciais ganham eleições negando-a, criando o que têm vindo a chamar regimes pós-democráticos.

A entrar nas 72 horas finais antes das eleições mais temidas no Brasil, o mundo democrático está focado em saber se vai haver virada. Ou seja, se três dias serão suficientes para confirmar uma inversão na tendência maioritária de Jair Bolsonaro em relação a Fernando Haddad.

Quando esta pergunta mais urgente for respondida, e seja qual for o veredicto, regressará o murro no estômago: como foi possível que num país democrático se criasse uma onda de massas em torno de um candidato fascista?

“É como um ovo de serpente, através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado.” Há mais de 40 anos, Ingmar Bergman filmou a serpente no ovo para explicar a disseminação do nazismo nos anos 20. E logo muitos perguntarão, não aprendemos nada com a História?

Essa é a questão mais repetida e mais equívoca dos nossos tempos. Ela parte do pressuposto de que a memória de um horror é suficiente para preveni-lo no futuro. Mas as lições da História, por muito bem aprendidas que estejam, nunca se compadecem com o processo histórico, e era isso que devíamos ter aprendido com ela.

O perigo gerado pelo equívoco é o de ficarmos sentados à sombra das vitórias democráticas do séc. xx, assumindo-as como lições finais da História, confiantes em que as nossas democracias são “demasiado sólidas”, “demasiado antigas” ou “demasiado esclarecidas” para serem postas em causa.

A negação é o primeiro instinto. E só isso justifica a surpresa quando a realidade nos entra pelos olhos adentro. A extrema-direita avança hoje como uma maré pastosa em boa parte do mundo, da Rússia aos EUA, na Europa, na Índia, no Brasil. Por toda a parte, candidatos providenciais ganham eleições negando-a, criando o que têm vindo a chamar regimes pós-democráticos.

Não há explicações isoladas e estanques nas fronteiras de cada país onde ascende um candidato de forças odiosas. Trump e Bolsonaro, Le Pen e Orbán fazem parte de uma nova geração de ultras que ganhou espaço na sequência da crise do capitalismo que estalou em 2008.

Duas coisas marcaram a resposta das elites governantes à crise. Por um lado, a degradação dos direitos sociais a caminhar em paralelo com a impunidade dos mercados financeiros. Por outro, a criação de um discurso que naturaliza a exclusão social e legitima moralmente a injustiça social criada pelos cortes.

O reverso do “pobres mas honrados” é a caridade e o preconceito social. A moralização da austeridade justifica a violência contra todos aqueles que são apontados como “culpados”, em geral os migrantes, refugiados, minorias, homossexuais, negros, os mais frágeis. A segurança, eterna promessa dos homens providenciais, é a liberalização da violência contra esses bodes expiatórios, o punitivismo seletivo, antecâmara da repressão política.

Encarar este fenómeno como o capitalismo a sobreviver à sua própria crise de legitimidade ajuda-nos a compreender por que razão caíram os partidos “tradicionais”. De outra forma, também não poderíamos explicar a migração da direita “democrática” para o campo dos ultras.

Chamam “moderação” à defesa cega do sistema que abriu as portas à extrema-direita, e em seu nome recusam alternativas de esquerda fundadas nos direitos democráticos e sociais. É um erro não ver aí a alternativa capaz de mobilizar milhões para resistir à extrema-direita. É um erro dizer que a campanha do #EleNão só deu visibilidade a Bolsonaro ou que um monstro como Bolsonaro e um democrata como Haddad são dois extremos iguais. Não entenderam nada. A extrema-direita alimenta-se disso.

Claro que há condicionalismos nacionais que desenham cada ultra, e não há dois iguais. No caso do Brasil, enormes desigualdades sociais, o crescente peso das igrejas extremistas, o racismo como substrato cultural e, claro, o golpe. Jair Bolsonaro é filho do golpe contra Dilma Rousseff.

Há um ovo de serpente no mundo. Quer isto dizer que a maré seja imparável? Este não é um artigo derrotista. Saber o que chocou o ovo aos ultras é a única forma de os derrotar, urgência de quem distingue o réptil debaixo das membranas finas.

Artigo publicado no jornal “I” em 25 de outubro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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