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O nosso voto muda, a rua conquista

Nas últimas eleições foi demonstrada uma vontade clara de dizer não ao ciclo de empobrecimento que o país viveu nos últimos quatro anos. Mas, será que o voto basta para transformar radicalmente a sociedade?

Após as eleições legislativas, os portugueses têm algo com que se congratular. Nestas eleições foi demonstrada uma vontade clara de dizer não ao ciclo de empobrecimento que o país viveu nos últimos quatro anos, ao mesmo tempo que foi dada uma confiança sem precedentes ao Bloco de Esquerda e ao PCP. E essa confiança já deu frutos.

Deu frutos no culminar da luta de décadas da comunidade LGBT+ em prol da adoção por casais do mesmo sexo, dando a estes os mesmos direitos que aos casais de sexos diferentes, dando a inúmeras crianças institucionalizadas o direito a uma família que as ame.

Deu frutos retirando as alterações que a direita fez à lei do aborto, que impunham condições humilhantes às mulheres que escolhem esse procedimento.

Deu frutos com o fim da avaliação de professores, não mais que uma perseguição organizada a esta classe, e com o fim dos exames nacionais do quarto ano, optando por uma avaliação contínua, virada para as necessidades do aluno, e dando a todas as crianças o direito a uma infância sem o stress causado por exames.

Sobretudo, deu frutos com a queda do governo da PAF. Os 50,9% dos eleitores, que viram ao longo destes quatro anos a sua vida piorar drasticamente, votaram contra a austeridade e respiraram de alívio com a queda da do governo de 17 dias da coligação.

É importante notar que este voto de mudança, que já permitiu tanto em tão pouco tempo, não foi só um voto de protesto contra o assalto ao Estado Social, esse garante de dignidade que tão arduamente conquistámos. Não foi só um voto contra a absurda acumulação de riqueza nos estratos mais favorecidos da nossa sociedade, em detrimento dos mais carenciados, dos trabalhadores, dos estudantes, dos pensionistas e desempregados, numa altura em que se fala em crise sistémica do capitalismo. É também um voto de confiança em projetos de transformação social, projetos de rutura com o Capital, por uma sociedade mais justa e humana em que a economia esteja ao serviço da sociedade, e não o inverso. Foi um voto de esperança em que a opressão, a perda de direitos fundamentais e de dignidade se transformem numa memória de um passado distante e não uma realidade do quotidiano.

Foi a essa realidade que escapámos com o nosso voto decisivo. Escapámos a um governo que programaticamente fala de “flexibilização” como resposta para o desemprego, ou seja, de degradar progressivamente as condições de trabalho dos trabalhadores, de diminuir a contração coletiva e congelar subidas do salário mínimo até que Portugal se torne no paraíso da precariedade, recibos verdes e mão-de-obra barata e dócil, com que a direita e o patronato sempre sonharam. Escapámos a um governo que privatiza tudo o que são setores estratégicos do estado, pondo recursos que pertencem a todos nós nas mãos de uns quantos. Se empresas privadas, cujo objetivo é o lucro, querem comprar ativos do estado, então é porque estes têm o potencial de gerar lucros, lucros que pertencem a todos nós e que devem ser rentabilizados e utilizados para financiar parte do Estado Social. Entretanto, este foi lentamente sufocado, desde o Serviço Nacional de Saúde, passando pela Educação pública e Segurança Social, para não mencionar a Cultura, esse sector tão negligenciado, onde a mercantilização e a precariedade imperam. Tudo isto pondo a responsabilidade desses serviços fundamentais às populações nas mãos de empresas privadas, cujas tarifas e sede de lucro apenas alguns utentes podem saciar. E os outros?

Os outros somos todos nós. Os que sofremos na pele esta apropriação do país por alguns. Nós, os alvos da opressão dos patrões e do Capital, trabalhadores que nada mais temos que não a nossa força de trabalho. Professores e empregados de mesa, médicos e trabalhadores de call center, estudantes, desempregados e reformados. Não nos enganemos. É de luta de classes que se trata. E nestas últimas eleições, com o nosso voto, com a composição do parlamento que elegemos, ripostámos à altura. Não às privatizações, não aos cortes no estado social, sim à taxação das grandes fortunas.

Mas será que o voto basta para transformar radicalmente a sociedade? Por si só não. É fundamental mobilizarmos a Rua, organizando manifestações, concentrações e assembleias que expressem a vontade popular de mudança. É fundamental criarmos coletivos de solidariedade e espaços alternativos de cultura e de decisão democrática para mostrarmos que é possível uma democracia horizontal, viva e participativa, onde as leis do mercado não reinem. Precisamos de sair da caixa do parlamentarismo, e de levar a luta de fora para dentro do parlamento e não o inverso. É fundamental que aquilo que se discute e legisla no parlamento seja acompanhado e reforçado por movimentos de massas, esses sim, com a capacidade transformadora para uma mudança sistémica. A luta será difícil, é certo, mas há lutas fáceis? Não.

Sobre o/a autor(a)

Estudante de Biologia e militante do Bloco de Esquerda
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