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O MEL e as vespas

A Direita portuguesa pode fazer o que bem entender com os seus princípios e com a sua história. A Direita democrática pode ter encontrado o momento ideal para acolher no seu seio, em discurso directo e sem contraditório, o denominador maior da sua autofagia.

Não pode ser negado à Direita o direito de percorrer o seu próprio caminho de extermínio, se uma das suas candidatas, Suzana Garcia, declara desejar que o Bloco de Esquerda seja exterminado. É claro que, no campo das desculpas, estamos sempre no campo das metáforas.

Portugal pede um banho de ética e a Direita responde com um banho de mofo. Nesta representação simbólica, o MEL ("Movimento Europa e Liberdade", uma espécie de Estados Gerais da Direita), convida e dá palco a ideais neofascistas, em mais uma tentativa de normalização do Chega. O convite a André Ventura diz muito sobre a incapacidade da Direita portuguesa em perceber que o país não quer resolver os seus problemas dentro do saudosismo salazarista. Os portugueses anseiam por uma visão de futuro, reformista dos males do Estado, que lute contra a corrupção e o sentimento de impunidade, mas que fortaleça a ideia de justiça coletiva, corrigindo os evidentes desequilíbrios do elevador social. No presente, um CDS de 1% entrega-se ao populismo indiferenciado. A IL, parida de um discurso ao Centro, ruma à Direita onde se sente como peixe na mão invisível, a fazer bailarico do 25 de Abril num marketing da liberdade saudosa do Novembro a 25. E este PSD de Rui Rio, pior do que tudo e todos, com a mensagem de Ventura, entrega a carta a Garcia na Amadora. Perante isto, acresce o estigma da discriminação: quem teve o desplante de se esquecer de convidar o PNR para o MEL?

A vertiginosa felicidade com que alguns democratas se aprestam a querer ouvir, na primeira fila e sem contraditório, o homem do partido da prisão perpétua, dos portugueses de bem e da misoginia, da cerca sanitária a etnias, do envio de portugueses de cor negra para a terra deles, da mutilação de membros a ladrões, do partido das assinaturas e contribuições financeiras suspeitas, do partido onde se fazem saudações nazis nos comícios, da demagogia mais aterradora dos clones de Trump e Bolsonaro, dos ideais mais divisionistas e plantadores de ódio na democracia portuguesa -, essa vertiginosa felicidade de alguns democratas tem um nome: conivência. E essa conivência tem um parente, nem pobre nem rico, apenas inqualificável: a normalização de um movimento - em nome do tacticismo e pela preguiça ou incapacidade de fazer de novo - que desafia os pilares mais básicos da democracia e que está a ser levado aos ombros entre os escombros da Direita democrática portuguesa.

Diziam-se asiáticas mas a globalização veio para ficar. Agora que a ideia do "extermínio" entrou no vocabulário político, relativizado pela mão doce e branqueadora de Rui Rio, é seguir na direcção dos ninhos. Para quem quiser encontrar vespas, é procurar dentro do MEL.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 30 de abril de 2021

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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