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O Estado dos banqueiros

Um poder político que se tem mostrado, há tanto tempo, um zeloso cuidador dos interesses da finança não tem reserva de autoridade para não ceder de novo ao mando da banca.

Os mesmos banqueiros que impuseram a Sócrates a intervenção da troika em Portugal querem agora impor a Passos Coelho que os salve a eles da intervenção da troika. Vêm dizer que o programa da troika "não faz sentido" para o sector financeiro. Que tem de ser "repensado de alto a baixo", porque é "um confisco aos accionistas".

Ou seja, as dores do aperto financeiro são para doer a todos enquanto não chegam aos banqueiros. Aí param. Sob pena de punição dura: nada menos que o desaparecimento do “sistema circulatório da economia” que é o sector financeiro, dizem eles. Não dizem coisa nova. Disseram-no quando os buracos do BPN e do BPP começaram a revelar a sua real dimensão – e então, alegando risco de colapso sistémico, o Estado (ou seja, todos nós) foi levado a assumir essas dores e servir de compensador sem fim dos desmandos dos gestores de sucesso desses bancos. Disseram-no depois quando decidiram cortar o crédito ao mesmo Estado, não obstante lhe cobrarem 7% de juros sobre empréstimos que eles próprios haviam contraído com juros de 1% - e então, alegando bancarrota no dia seguinte, o Estado (ou seja todos nós) foi levado a ajoelhar e a aceitar ser governado a partir de fora, com prestação de contas trimestral. E agora dizem-no de novo, e exigem ao Estado que mude as regras da troika para eles. Estes liberais não param de nos surpreender, com a sua dependência permanente do Estado!…

O que eles não aceitam é que se façam avaliações rigorosas (“fundamentalistas”, dizem) às suas carteiras de créditos – e é caso para nos assustarmos todos por eles se assustarem com tal hipótese. O risco de défices insuspeitados é grande e, com ele, o cenário de intervenção pública põe os banqueiros muito mal dispostos. E menos ainda querem assumir a obrigação de recapitalização dos bancos. Ou seja, a única boa – ainda que mínima – ilação que se tirou da génese da crise (a necessidade de redimensionar a proporção entre capitais próprios e aplicações de risco) não a querem os banqueiros assumir. A diminuição da margem de dividendos a distribuir em cada ano poderia diminuir e isso é a linha vermelha que os banqueiros não permitirão que se passe.

Eis pois o governo diante de um desafio definidor: dá prioridade à economia ou aos bancos? Um poder político que se tem mostrado, há tanto tempo, um zeloso cuidador dos interesses da finança não tem reserva de autoridade para não ceder de novo ao mando da banca. É isto um Estado frágil.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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