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O desconforto de Pires de Lima

Do alto do seu conforto de quem vive perto da gestão de empresas e longe da vida real, Pires de Lima reproduz uma ideia perigosa: a de que a investigação tem de produzir valor para as empresas, caso contrário não tem qualquer valor.

No meio de um concurso para a atribuição de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento que chumbou um número recorde de candidaturas e repleto de irregularidades, no meio de um desinvestimento na investigação científica sem precedentes, o discurso sobre a “competitividade” e o “empreendedorismo” atinge o seu auge. O empresário da Unicer transformado em Ministro da Economia critica o modelo de investigação científica que cria um desconfortável conforto, por estar “longe das empresas e da vida real”. Do alto do seu conforto de quem vive perto da gestão de empresas e longe da vida real, Pires de Lima reproduz uma ideia perigosa: a de que a investigação tem de produzir valor para as empresas, caso contrário não tem qualquer valor.

Não é muito difícil encontrar exemplos de investigação científica que produz pouco ou nenhum valor para as empresas, de tal forma que uma estimativa do seu valor acrescentado poria o Ministro da Economia tão vermelho de indignação que necessitaria de muitas Super Bock para arrefecer a cabeça. Muito mais difícil é encontrar exemplos de investigadores/as que vivam numa situação confortável, tendo em conta a precariedade inerente à função e as dificuldades de encontrar fundos para desempenhar tarefas necessárias à boa condução dos seus trabalhos. Mas o mais difícil mesmo é encontrar exemplos de investigação científica que produza pouco valor para as empresas e que, simultaneamente, esteja longe da vida real.

Vejamos alguns exemplos. Qual é o valor, para uma empresa, de um projeto de investigação que desenvolva métodos para evitar casos de violência nas escolas? E se for um doutoramento sobre as perceções sociais de uma doença, que permita melhorar o seu tratamento e estratégias de prevenção? E se for um pós-doutoramento sobre métodos participativos de gestão de áreas florestais, de forma a melhorar a sua sustentabilidade ambiental e prevenir incêndios?

Nestes exemplos, como em tantos outros, o valor criado para as empresas é diminuto e apenas é criado de forma indireta, dado que destes projetos de investigação não resultam novos produtos ou serviços comercializáveis ou novas formas de vender produtos e serviços existentes. Para um capitalista como Pires de Lima, portanto, estes projetos não valem nada e não representam mais que um desperdício de dinheiros públicos. Uma conclusão aparentemente de senso comum, mas que na realidade vai contra o senso comum, dado que implica considerar que os ganhos sociais associados à prevenção da violência, da doença ou de incêndios são irrelevantes.

Mas não só em áreas como as ciências sociais ou a filosofia se podem encontrar casos de projetos de investigação que produzem pouco valor para as empresas mas cujo valor para a sociedade é imenso. Um caso paradigmático é o da investigação em ciência básica, que não tem, por si só, qualquer valor para o mundo empresarial e, no entanto, é essencial para que a investigação em ciência aplicada possa existir. A investigação em anatomia e fisiologia humana, por exemplo, não permite registar patentes comercializáveis, mas é essencial para o desenvolvimento de novos medicamentos. Medicamentos que, já agora, podem ser produzidos por laboratórios públicos e oferecidos ou vendidos a baixo custo a quem deles necessita, o que dá cabo do negócio às farmacêuticas mas permite que ninguém seja excluído da saúde por motivos económicos.

A destruição da investigação, ao abrigo da corrupção de poderes públicos pelo mundo empresarial, não implica apenas condenar milhares de pessoas ao desemprego ou à emigração forçada. Não implica apenas construir um país mais pobre, incapaz de produzir qualquer produto com valor acrescentado superior por não ter um investimento em investigação que o permita. Mais que isso, significa ter uma sociedade mais pobre, porque incapaz de refletir sobre si mesma, significa ter um ser humano mais pobre, porque incapaz de olhar para si próprio. Implica, acima de tudo, termos um país incapaz de resolver os seus problemas. Tudo isto pode valer pouco para um empresário como Pires de Lima mas sabemos bem o quanto vale para nós.

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
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