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O Déjà Vu Crónico

Esta deslocação a Wall Street nem é de estranhar. Faz parte de um déjà vu crónico que há muito nos é apresentado. Indignação-reverência-esquecimento são as suas três fases.

 Teixeira dos Santos, o presidente da bolsa de Lisboa e uma comitiva de gestores das maiores empresas portuguesas foram a Nova Iorque numa eufemisticamente denominada “operação de charme” junto dos mercados norte-americanos. Uma peregrinação a Wall Street, tentando convencer os investidores de que Portugal não é a Grécia. Que somos responsáveis, modernos e dinâmicos, que vamos portar-nos bem e que vamos fazer o que for necessário para acalmar os mercados. Infelizmente, no momento actual, esta deslocação a Wall Street nem é de estranhar. Faz parte de um déjà vu crónico que há muito nos é apresentado. Indignação-reverência-esquecimento são as suas três fases.

Numa primeira fase, na sequência do ataque especulativo de que Portugal foi alvo, quase se gerou um consenso político nacional de indignação contra os malvados mercados. Uns marotos, como se atraveram a atacar-nos de forma tão vil? Todo o discurso da necessidade de regulação foi então tomado em mãos pelos mais improváveis sectores políticos.

Pouco tempo depois, tal sentimento de indignação colectiva foi magicamente dando lugar à reverência. Afinal afinal, os malvados mercados têm alguma razão. Se reagiram como reagiram é porque alguma coisa de errado andamos nós a fazer. Não passa pela cabeça de ninguém que o ataque especulativo tivesse por base a mera especulação, não é? Assim sendo, todos teremos de solidariamente contribuir para este esforço nacional de acalmar os mercados. E mais: como demonstração do nosso empenho, alguns dos nossos ilustres embaixadores foram em peregrinação a Wall Street manifestar a nossa fé. É este o ponto actual em que nos encontramos.

Para terminar em grande o déjà vu, depois desta fase de reverência caminharemos então aos poucos para a fase do esquecimento. A austeridade está cá para ficar, mas a indignação pertencerá a águas passadas. Para quê guardar rancores? E essa coisa da regulação dá muito trabalho. É então aqui que o ciclo voltará ao seu ponto de partida, até que surja uma nova crise, um novo ataque especulativo, uma qualquer inquietude dos mercados. A fórmula indignação-reverência-esquecimento entrará novamente em cena.

Embora as histórias previsíveis possam ter a sua graça, se calhar seria preferível confiná-las às comédias românticas de domingo à tarde na TVI. Por outro lado, fazer repetidamente este papel de falso adivinho com base em déjà vus crónicos é não só pouco sério, como um pouco cansativo. Porque não nos surpreendem com uma nova sequência, com um novo enredo, com um novo argumento? Eh pá, vá lá... Surpreendam-nos um bocadinho, sff. Vá lá...

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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