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O cinema saiu à rua

A força das centenas de pessoas que se uniram nas escadarias na Assembleia da República, a olhar para um lençol cheio das imagens que são as suas, é a força de quem não desiste, não apenas da cultura, mas do país.

As escadarias da Assembleia da Republica, por uma noite, transformaram-se em plateia de cinema. Centenas de pessoas a olhar para o cinema português, projetado num lençol. Uma montagem que nos trouxe a imagem do que somos. E quando vemos as imagens do Aniki Bobo, dos Verdes Anos, do Delfim, do Sangue do meu Sangue, de tanto cinema que somos, percebemos bem a extrema violência de um governo que decidiu pura e simplesmente parar a produção de cinema em Portugal.

Dizia Fernando Lopes que "Um país que não cria e não fabrica as suas próprias imagens é um país que não existe". As imagens do cinema português, as suas histórias, as suas músicas, os seus atores e as suas atrizes, desenham o que conhecemos, o que somos, o que queremos e não queremos ser. No momento preciso em que somos confrontadas com cada um desses pedaços das nossas múltiplas identidades, percebemos o tanto que nos dizem.

Um país que desiste da cultura, da criação artística, de construir as suas narrativas, é um não país. E é por isso que a defesa da cultura, das políticas públicas para a cultura, não é coisa de um punhado de gente ou de um determinado setor. É de toda a gente. Não eram realizadores e realizadoras nas escadarias. Era também realizadores. Mas acima de tudo, era gente que gosta de cinema, de cultura, e que não desiste. E a força das centenas de pessoas que se uniram nas escadarias na Assembleia da República, a olhar para um lençol cheio das imagens que são as suas, é a força de quem não desiste, não apenas da cultura, mas do país. E do futuro.

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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