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O ciclo do apodrecimento

A revelação da presença de um dirigente do CDS na direção do banco que propôs aldrabar o défice em 2005 e 2006 e fazer-nos pagar juros milionários por 30 anos levanta uma questão interessante: como é que estas pessoas acabaram quase todas a trabalhar para o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas?

Nos comentários televisivos a seguir à queda do Lehman Brothers, os dirigentes do CDS troçavam da coincidência de siglas do seu Centro Democrático Social com os Credit Default Swaps que tiveram um papel preponderante no colapso financeiro de 2008. "Isso são outros CDS, o nosso não vai ao fundo", explicavam entre sorrisos.

Agora, swaps e CDS tornaram-se mais difíceis de distinguir. Tudo graças ao antigo diretor de departamento do Citigroup em Portugal, Gonçalo Barata, com quase duas décadas de carreira ao serviço do banco de investimento norte-americano. O seu nome aparece na proposta entregue em 2005 pelo Citigroup ao gabinete de José Sócrates, enquanto membro da equipa do banco que ficou responsável por impingir swaps tóxicos a dois ministros das Finanças de Sócrates. 

Mais tarde, quando aderiu ao CDS à beira das eleições legislativas de 2011, Gonçalo Barata foi apresentado como uma das grandes esperanças do partido, ascendendo quase de imediato à Comissão Política de Paulo Portas. Depois das eleições, não demorou muito a ser colocado na administração das Águas de Portugal pela ministra Assunção Cristas, onde ainda permanece, negando ter tido papel ativo no escândalo que já custou o lugar ao ajudante da ministra das Finanças no Tesouro.

O negócio falhado dos swaps para aldrabar Bruxelas e secar os cofres públicos tem outro protagonista sentado à mesa do atual Orçamento. Trata-se de Paulo Gray, que acompanhava Pais Jorge às reuniões com os assessores económicos do Governo para apresentar o "presente envenenado". Foi a ele que o atual Governo recorreu para explicar os contratos swaps assinados na última década pelas empresas públicas e distinguir os mais tóxicos dos menos tóxicos. O serviço de Gray foi prestado pela sua "boutique financeira" Storm Harbour e custou-nos meio milhão de euros.

Fazendo as contas, dos cinco nomes portugueses que constam da lista do Citigroup enviada a Sócrates, a maioria acabou recompensada pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas com nomeações para responsável pelo Tesouro (Pais Jorge), gestor público (Gonçalo Barata) e consultor (Paulo Gray). Se acrescentarmos à lista outras figuras ligadas à especulação financeira internacional a ocupar lugares-chave, como o governante Carlos Moedas e o consultor António Borges (ambos ex-Goldman Sachs, hoje responsáveis pelas privatizações) ou Moreira Rato (também ex-Goldman Sachs e hoje responsável pela gestão da dívida pública portuguesa), não é difícil concluir porque é que boa parte do produto do assalto do Governo às pensões e aos salários está a ser sugada, em comissões e juros, pelos bancos que os formaram no casino financeiro internacional. 

Com esta influência do polvo financeiro no Governo, já ninguém estranha que Passos Coelho não se incomode em manter à distância os responsáveis da SLN/BPN do tempo de Oliveira e Costa e até faça questão de manter a sua ex-professora na Lusíada - a "perita em swaps", como lhe chamou Vítor Gaspar - com a pasta das Finanças, apesar de ter visto a sua credibilidade reduzida a zero. Afinal, a crise aberta por Gaspar e Portas abriu de facto um novo ciclo: é o ciclo do apodrecimento.

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