Está aqui

O agora é Sábado. Está na hora!

Está na hora de mostrar que as pessoas não são descartáveis, não são acessórios de jogos bolsistas, não são artigo de transacção financeira. São pessoas.

Eis que o velho sonho se tornou triste realidade. Governo, maioria, presidente. Cá temos nós a direita mais reaccionária, mais populista e mais submissa ao capital, aglutinada no poder. Tão depressa chegaram como tão rápido se percebeu ao que vieram. Já caiu a máscara da demagogia de campanha eleitoral. A cópia do programa de governo tem mais erros do que o original ditado pela troika. A voragem vertiginosa das medidas de austeridade impostas com a autoridade de quem usurpa direitos básicos da dignidade de viver, entra-nos em casa a todo o instante. Aumentam os impostos e o preço de bens essenciais, diminuem os salários, galopa o desemprego e amputam subsídios. Perdem-se instrumentos públicos de regulação e gestão e desinveste-se nos serviços para os privatizar ao desbarato. Em nome do logro de uma justiça económica cometem-se as maiores desigualdades financeiras. O rendimento do trabalho paga para o rendimento do capital lucrar. Veja-se como têm crescido as maiores fortunas e o que têm pago de imposto. Já para não falar na obscenidade consentida, e por vezes defendida, a governantes do nosso farsante reino. Quem manda calar, e já agora pagar, aquela desprezível figura da insular República Bananas da Madeira? Quem é, ou quem são, os culpados da cratera financeira que o BPN entalhou pela corrupção adentro? Quem pode entender que grande parte de ex-ministros seja altos quadros de empresas que negociaram com os ministérios que tutelavam? E não há quem investigue o aumento exponencial dos seus rendimentos após passagem ministerial? Este divino mistério leva já muitos crentes do ministério a optarem por ser ex antes de serem ministros.

Estamos em crise, dizem todos. O pior está para vir, agoiram os aflitos. Todos temos que pagar, afirmam os governantes. Não há outro caminho, concluem os opinadores do regime. Mais vale este que nenhum, aventam os resignados.

É esta a política do nosso país. Um grupo de ordeiros executores encimados por um caprichoso 1º ministro, prontos a cumprir inexoravelmente um violento programa neoliberal, gizado por uma cruel troika de conveniências atentatórias à soberania do país e de espezinhamento dos direitos e condições de vida da população. Em nome de uma notável ajuda, como se ouve dizer, atiram-nos para o fosso de uma depressão prolongada de recessão incessante. De início as medidas de austeridade são temporárias, com o decorrer do tempo pioram e tornam-se permanentes, como se de uma doença incurável se tratasse que quanto maior for a dose do medicamento pior é a cura. Tome-se como exemplo o que se passa na Grécia, país com o qual os nossos governantes têm uma relação muito peculiar de solidariedade. Não se cansam de afirmar que somos diferentes como se eles tivessem uma peste contagiante que exala afinidades. Ou será que esta demarcação é uma prece aos helénicos deuses para que nos livrem dos seus próprios males? Enquanto não mudarmos esta desastrosa política europeia, podemos ter a certeza que caminhamos em choque encadeado para uma “greciarização” da desmoronada U E. A Europa da austeridade e os seus defensores puseram em marcha um projecto de demolição social e institucional muito visível nas dividas públicas que se tornam impagáveis, na destruição do Estado social que faz do bem público o negócio do século, nas assimetrias socio-económicas crescentes como que uma globalização das desigualdades, no fortalecimento dos mercados financeiros e consequente fragilização generalizada dos estados. É a própria democracia, enquanto contrato social dos objectivos de formação da CEE, que está em risco ao deixar de haver um quadro de partilha colegial das tomadas de posição e passar a haver imposição unilateral assente nos interesses de quem decide (Merkel-Sarkozy).

E em Portugal. Se por um lado temos uns tecnocratas bem-educados e moldados pela ambição de enumerar pessoas para não enervar os mercados, acatando com reverencia os ditames de quem decide numa governação politicamente acéfala e socialmente empedernida. Por outro, temos um Presidente com a imagem bafienta e moralista do Conselheiro Acácio, que diz que estamos a viver acima das nossas posses e precisamos de poupar e acautelar ilusões para enfrentar uma austeridade digna. E para que a mensagem corra o país de lés-a-lés e possa chegar a todos quantos não têm posses, até se transfigurou numa espécie de missionário de Boliqueime que mensaja por facebook. É preciso perguntar quem são os que vivem acima das possibilidades num país cujo salário médio é de 750€, 12,5% de desemprego, cerca de 1 milhão e 200 mil precários e 20% das famílias em situação de pobreza.

Está na hora de mostrar a estes senhores e a estas medidas de austeridade e seus trágicos danos, que as pessoas não são descartáveis, não são acessórios de jogos bolsistas, não são artigo de transacção financeira. São pessoas.

Está na hora de sair à rua e com muito empenho levantar a voz do protesto, do inconformismo, da resistência, da indignação, da exigência de participar activamente nas decisões que nos afectam.

Está na hora de avisar a malta que o que faz falta é mobilização popular capaz de se opor a esta calamidade social e mostrar que com outras políticas outro mundo é preciso e é possível.

Está na hora de fazer com que o agora seja Sábado, 15 de Outubro, o dia da onda mundial da mudança numa luta que é de todos e por tudo.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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